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TEORIA DA JUSTIÇA - 3ª LIÇÃO - PARMÊNIDES DE ELÉIA, O POEMA SOBRE A NATUREZA E AS IDEIAS DE JUSTIÇA COMO VALOR (THEMIS) E COMO NORMA (DIKÊ)

TEORIA DA JUSTIÇA - 3ª LIÇÃO - PARMÊNIDES DE ELÉIA, O POEMA SOBRE A NATUREZA E AS IDEIAS DE JUSTIÇA COMO VALOR (THEMIS) E COMO NORMA (DIKÊ)

Kosmos: Ordem e harmonia.

Esta Lição será dividida em quatro partes: I - O papel do conceito em face das imagens míticas, no pensamento dos Pré-Socráticos. II – A Teoria do Conhecimento de Parmênides de Eléia. III - Parmênides de Eléia: O Poema “Sobre a Natureza”. IV – Aplicação da ideia de Justiça como “Ordem Harmônica”, presente no Poema de Parmênides, ao Universo Jurídico.

Não vamos encontrar, entre os Pré-Socráticos (séculos VII a V a.C.), definida uma “Teoria da Justiça” aplicável diretamente ao comportamento humano. Encontraremos, sim, uma Filosofia da Natureza, em que aparece o conceito de Ordem, atrelado à permanência da harmonia do Cosmo. Dessa harmonia cósmica, pode-se deduzir um conceito de Justiça, que é entendida, primordialmente, como aplicável à Natureza e, depois, à sociedade humana. Esclareçamos que o conceito de Justiça, assim aplicado ao Cosmo e, ulteriormente, à ordem humana, correspondia à ideia de “Ordem Harmônica”, que os gregos exprimiam com o termo: “Kosmos”. Uma ordem harmônica conseguida, aliás, não de forma autoritária, mas consensual, em decorrência de que o meio social se caracterizava, não pela prevalência de uma única autoridade central, mas por múltiplas cidades, situadas nas Ilhas do Mar Egeu e nas costas do Mediterrâneo Oriental, onde se praticava um intenso e variado comércio. O fato de não haver uma autoridade central forte, fez com que, nas várias cidades, florescesse um ambiente de tolerância em face de várias concepções de Mundo, dando ensejo, assim, a um ambiente de liberdade individual, que era a nota característica dessas dispersas sociedades, organizadas ao redor das pequenas cidades, que praticavam intenso e variado comércio. Outra característica: os indivíduos se acostumaram, nesse ambiente de tolerância, a buscar soluções práticas, para melhor praticarem a navegação e as técnicas comerciais. Adotaram-se caracteres fenícios para os números e para realizar as contas. E o alfabeto fenício serviu como ponto de partida para a consolidação da língua grega, como linguagem comum, uma linguagem eminentemente prática. O alfabeto foi uma das características dessa nova língua, que emergia nesse ambiente de liberdade.

I - O papel do conceito em face das imagens míticas, no pensamento dos Pré-Socráticos.

O mérito dos pré-socráticos consistiu em terem traduzido as imagens dos mitos cosmogônicos gregos em conceitos. Mas essa tradução não foi instantânea. Primeiro começaram a falar em elementos de que tudo se constituía. Uns enfatizavam a água, outros o fogo, outros a terra, outros o ar. Mas o que lhes interessava era ir traduzindo as imagens em algo que não deixava de ser imagem, mas que, ao mesmo tempo, dizia algo mais, fixando a atenção no conceito. É nele, aliás, que os Pré-Socráticos fixavam a atenção, como criação da Razão. O que lhes interessava era, diferentemente do que se passava nas demais culturas da Antiguidade, registrar a aventura da Razão, num mundo construído à base de Conceitos, que traduziam, abstrata e racionalmente, o Mundo Real da Natureza, que se apresentava aos seus olhos. A respeito, frisa o estudioso brasileiro Gerd Alberto Bornheim (1929-2002):    "(...). Mas se compreendermos a Filosofia em um sentido próprio, isto é, como o resultado de uma atividade da razão humana que se defronta com a totalidade do real, torna-se impossível pretender que a Filosofia tenha estado presente em todo e qualquer tipo de cultura. O que a História nos mostra é exatamente o contrário: a Filosofia ´´e um produto da cultura grega, devendo-se reconhecer que se trata de uma das mais importantes contribuições daquele povo antigo ao mundo ocidental" [Bornheim, 1993: 7].

Essa característica eminentemente racional da Filosofia entre os Pré-Socráticos, convivia muito bem, neles, com a nota que ressalta nos Mitos, de serem criações da imaginação a serviço de uma explicação do Cosmo e da Vida. Diríamos que os Pré-Socráticos conseguiram traduzir em conceitos abstratos aquilo que os Mitos explicavam vivencialmente, através de imagens. Na Filosofia Pré-Socrática permanece essa presença da Imagem, mas já como portadora de algo abstrato, a representação conceitual. O saudoso professor Mário José dos Santos (1948-2017) explicitava, assim, essa relação: "Esses pensadores que, no futuro, receberão o nome de filósofos, historicamente, serão os primeiros a provocar uma ruptura com o corpo de saber vigente, à época, tradicional e fundamentado na mitologia. Suas pesquisas, ideias e novas propostas explicativas do universo, coincidem com o aparecimento da filosofia, uma nova forma de conhecimento, mais razão que fantasia, geradora de uma nova mentalidade e novos paradigmas. A passagem da mitologia para a filosofia não ocorre provocando, de imediato, um corte abrupto, radical e definitivo, da noite para o dia. O antigo e o novo saberes convivem num jogo de aproximações e repúdios, num largo período de transição, até que os contornos dos pensamentos de um e de outro tornem-se mais precisos, mais nítidos e assimilados como novos modos diferentes de criação cultural. A cosmologia que os filósofos pré-socráticos formularam, fruto do esforço da razão para explicar todos os seres, o real na sua totalidade, a partir de um ou mais princípios colocados na origem de tudo, foi o modo como a filosofia se expressou nos seus primórdios" [Santos, 2001: 12].

Quando Tales de Mileto (624-546 a.C.), por exemplo, dizia que o constitutivo de tudo é água, não se referia, exclusivamente, ao elemento físico, mas queria se remontar até o princípio de onde tudo provinha. Era por isso que Friedrich Nietzsche (1844-1900) considerava que Tales foi o primeiro metafísico, porque buscava enxergar a origem última dos seres, aquilo que seria a conditio sine qua non de tudo. Tales pensava nos primeiros princípios, embora fosse também um físico, preocupado com a análise experimental dos elementos presentes na natureza.

Foi no mito onde a metafísica grega, já mais evoluída após o ciclo pré-socrático, encontrou a inspiração para a estrutura conceitual com que tentava representar a realidade. A imagem do Caos foi substituída, na metafísica aristotélica, pelo conceito de Ser, ao passo que Uranos (o Céu, princípio ativo) foi traduzido como Ato e Gaia (a Terra, princípio passivo) como Potência. Temos, assim, os elementos fundantes da metafísica da potência e do ato, que serviram de base conceitual à filosofia ocidental até o início do período moderno [cf. Aristóteles, 1989; 2000].

Augusto Comte (1798-1857) tinha formulado a Lei dos Três Estados, segundo a qual a razão humana percorreu três etapas ao longo da sua evolução, tanto do ponto de vista da ontogênese (nos indivíduos), como da filogênese (na espécie). Ora, segundo esse postulado, tanto o homem individual quanto a espécie humana, primeiro representaram e explicaram o mundo teologicamente, ou seja, em imagens míticas referidas a princípios primordiais, e somente depois foram capazes de pensar de maneira filosófica, ou metafisicamente, para, por último e como fruto da evolução progressiva da razão, chegarem a elaborar explicações positivas ou científicas, que constituiriam a mais perfeita e definitiva forma de conhecimento, que dispensaria as outras duas, porquanto desvendavam de forma definitiva os segredos da natureza, pondo-a sob o domínio da razão e a serviço do homem [cf. Comte, 1972; 1973].

A explicação de Comte tem uma parte verdadeira e outra falsa. A verdadeira consiste em ter reconhecido três formas de conhecimento intimamente ligadas entre si, a mítica, a metafísica e a científica. A parte falsa consiste em ter formulado essas três modalidades como se excluindo temporalmente, pensando que a metafísica excluiria o mito e que a ciência excluiria as outras formas de conhecimento que lhe possibilitaram o surgimento.

Trata-se, pois, de recuperar a validade da teoria comteana, inserindo as três formas de conhecimento num quadro de complementariedade. Afinal mito, metafísica e ciência, são três formas de conhecimento que se completam, se pressupõem e não podem se invalidar mutuamente. Cada uma delas fornece um tipo de conhecimento qualitativamente diferente. Mesmo que dominemos as ciências, não podemos abjurar os mitos (que se exprimem hodiernamente nos credos religiosos ou nas tradições populares), e tampouco poderemos exorcizar a filosofia (que resgata a dimensão holística e de sentido racional da existência).

II – A Teoria do Conhecimento de Parmênides de Eléia.

1 – Parmênides de Eléia e a postulação da via e da não-via.

Parmênides (530-460 a. C.) nasceu em Eléia (hoje Vélia, província de Salerno, no sul da Itália). Estudou com o pitagórico Amínias. Provavelmente foi, também discípulo de Xenófanes. Consta que criticou os pensadores Jônios, junto com Zenão de Eléia (490-430 a.C.), em Atenas. Escreveu o famoso poema intitulado Sobre a natureza (Perí tes Fyseos) que consta de um preâmbulo e duas partes, sendo que a primeira se refere à verdade e a segunda à opinião. Parmênides combate, ao mesmo tempo, o dualismo pitagórico e o conceito de movimento de Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.).

O Poema de Parmênides foi caracterizado, tradicionalmente, como uma Teoria do Conhecimento solidamente fundamentada em bases metafísicas. A pergunta à qual responde o pensador é esta: Qual é o caminho válido para o conhecimento e qual seria o caminho errado?

No seu célebre poema, Parmênides distingue a via da não-via [cf. Ladrière, 1967]. A primeira constitui o caminho verdadeiro; a segunda, o que está cheio de falsidades. A não-via é o caminho do não-ser, a via verdadeira é o caminho do ser. Os signos do ser são os seguintes: ele não é gerado, não é perecível, não é alterável, é imóvel, sem passado, sem futuro, sem fim. Do ponto de vista positivo, ele é de complexão íntegra, continuamente presente, inteiro e, ao mesmo tempo, único. Esses signos são o ser mesmo, definem a participação nele.

Se ao lado da via do ser encontramos a da não-ser, que está cheia de falsidades e na qual não podemos acreditar, a via da dóxa, ou da aparência, como devemos compreendê-la? Apresentam-se, aqui, duas interpretações: para uns, é uma via de falsidade. Parmênides, ao se referir a esta via, quer talvez refutar alguns dos seus predecessores, possivelmente Heráclito. Para outros, Parmênides desenvolve, aqui, uma hipótese sem valor filosófico, formulada para aqueles que não eram capazes de coisas melhores.

2 - Jean Beaufret (1907-1982), segundo Martin Heidegger (1899-1976) [cf. Heidegger, 1979], propõe outra interpretação.

Esta terceira via é a das dokounta, das coisas que aparecem, que se mostram no plano fenomenal. É o domínio da inconstância. No momento em que cremos apreender as coisas, elas já se converteram em outras. Há, nelas, uma radical dualidade de formas. Mas essa via das dokounta não é ilusória, não seria necessário interpretá-la a partir de uma concepção platônica. Se o ser é colocado na primeira via, é para indicar que ele se diferencia radicalmente de todo ente. A via das dokounta é a dos entes. A dóxa (=opinião) é o domínio da denominação. Encontramos, aqui, a força da Palavra que diferencia e que, por isso mesmo, individualiza as coisas. O ente é passagem, mas o ser é a dimensão pela qual se mede a amplitude possível de sua presença. O ser é foco de iluminação, mas ele não é perceptível enquanto tal. Ele se revela somente através da diversidade dos entes.

O dimorfismo do ente significa que toda presença está contaminada com a ausência; é por isso que não podemos confiar naquilo que aparece. Mas isso não implica num ceticismo absoluto, pois nenhuma ausência é irreparável. O que caracteriza as dokounta é menos a sua pluralidade do que o dimorfismo que as habita (ou seja, a dualidade, nelas, da presença e da ausência).

O erro provém do fato de isolarmos um aspecto. A unidade, efetivamente, não pode ser procurada no mundo dos entes. É o ser que é a unidade. O ente é só passagem. Isso nos leva a compreender o sentido da implicação essencial do dia e da noite. Vemos, aqui, como as categorias do mito se prolongam nas categorias especulativas do pensamento ontológico.

Geraldo de Mello Mourão (1917-2007) escreve a respeito de Parmênides:

“De acordo com os dados mais fidedignos, oferecidos por Platão (428-348 a.C.), Parmênides de Eléia, o mais importante dos pré-socráticos (…) deixou um poema filosófico, conhecido pelo título de Peri Physeos (Sobre a Natureza), do qual restam fragmentos conservados sobretudo por Simplicius de Cilícia (490-560). A estrutura deste poema (…) parece ter sido a seguinte: uma introdução de grande força poética, como primeira parte sobre a via da verdade e uma segunda sobre a via da opinião. A tradução compreende tudo o que resta do poema de Parmênides: 155 hexámetros gregos e 6 hexámetros latinos, do códice de Simplicius” [Mourão, 1987: 9].

III - Parmênides de Eléia: O Poema “Sobre a Natureza” [Parmênides, 1987: 9-27].

“As éguas que me levam avançavam pelas lonjuras do coração. Montado nelas pela estrada a cujas beiras a palavra dos deuses florescia, atravessei as moradas dos homens pelos caminhos por onde viaja aquela que sabe ver. E eran as raparigas que regiam as bridas das éguas ariscas atreladas ao meu carro estrada afora. E o eixo que se esquenta ao girar, cantava como uma flauta entre as rodas girando, quando as Filhas do Sol, deixadas para trás as moradas da noite, apressavam sua corrida para a luz, afastando com as mãos os véus que lhes cobriam as cabeças. Lá estão as portas que se abrem sobre os caminhos da Noite e do Dia, enquadradas, ao alto, num dintel, e repousadas, em baixo, sobre um batente de pedra. Elas brilham no ar em toda a extensão de suas vastas molduras, e é Dikè, a poderosa, quem tem na mão as suas chaves, para abri-las e fechá-las. Com a carícia de suas doces palabras, as Filhas do Sol encontraram a arte de abrandá-la. E ela corre, de um golpe, o ferrolho solidamente fechado. As portas voam, deixando vazio o espaço das molduras. Um depois do outro, iam-se encaixando os marcos, guarnecidos de cobre, com suas aldravas e suas dobradiças. E eis que, transpondo as portas, diretamente pela estrada real, as raparigas guiam os carros e os cavalos”.

“E a mim também me acolhe a doce Deusa. Tomou em suas mãos a mina mão direita. E foi cantando que me disse: - ‘filho, tu, escoltado por cocheiros imortais, tu, que ao galope das éguas chegas à nossa morada, salve! Não, não foi a Moira funesta que te trouxe por esta estrada, distante dos homens e de seus caminhos, mas Themis e Dikê. E agora é preciso que mergulhes em todas as indagações. Tanto da Aletheia (=verdade), que contempla tudo, cujo coração não treme, como das coisas caras aos mortais, que não alcançam a Aletheia. Olha bem o que ainda tens que aprender: de que modo as coisas de aparências diversas são feitas para ser vistas, ao mesmo tempo em que atravessam tudo e penetram por toda parte”.

“Hás de ser o guardião da palabra escutada, pois vou dizer-te quais os caminhos – os únicos – em que hás de pensar em tua busca. O primeiro dos caminhos mostra aquilo que é, sem qualquer obstáculo para impedir o ser. Confia neste camino, fiel à Aletheia. Quanto ao outro, para saber o que não é, mesmo que ele tenha poder legítimo sobre o ser proibido, por tal camino, advirto, nenhum passo poderá ser seguro. Pois está fora de teu poder saber o não-ser – não ganharás nada com isso – nem que tua palabra o diga”.

“Na verdade, pensar e ser é ao mesmo tempo a mesma coisa. Mas o que é ao mesmo tempo ausente e presente, aprende a vê-lo, pelo pensamento, com um olhar que nada possa desviar; pois, jamais o ser cortará sua ligação com o não-ser-mais, tal como acontece ao que se dispersa em todos os sentidos e ao que se junta para formar um todo”. (…). E agora, para ti, ponho um ponto final à palabra exata e ao saber que toca à Aletheia. A partir daqui, aprende, então, aquilo que interessa aos mortais, e fica atento à orden das coisas que digo. Elas estabeleceram claramente duas figuras, para denominar o que tinham em vista. Mas já que tudo se há de chamar luz e noite, estes dois nomes respondendo às respectivas significações em que situam, aquí e ali, seus domínios, tudo está, ao mesmo tempo, cheio de luz e de noite sem luz, nas mesmas proporções, se nada perturbar a uma delas”.

IV – Aplicação da ideia de Justiça como “Ordem Harmônica”, presente no Poema de Parmênides, ao Universo Jurídico.

1 - O poema de Parmênides é uma Teoria do Conhecimento.

Essa teoría serve de fundamento à abordagem, por Parmênides, do Ideal da Justiça. Sem ele, não há nada de sentimento do Justo. O Mundo da Justiça é, para Parmênides, triâdico: Está presidido por Themis (a deusa amorosa do Valor Justiça), Dikê (a deusa forte que se traduz em Normas – ou limites -) e os Fatos avulsos da experiência (aquilo que os homens gostam de conhecer, porquanto ligado às experiências cotidianas).

Todo o problema do conhecimento jurídico consiste em como podemos nos elevar dos fatos (moradas da Noite) para a descoberta da Justiça como Valor e das Normas, que são fruto da dinâmica da Justiça em face dos fatos da experiência. É o cerne do que posteriormente Miguel Reale (1910-2006) denominará de “Teoria tridimensional do Direito” [Cf. Reale, 1994]. Sem esses três patamares (Fato, Valor e Norma) não há conhecimento do Direito.

2 - Filhas do Sol ou “Helíades”.

Segundo a Mitologia Grega, as Helíades eran filhas de Hélios (o deus Sol) e de Climene (filha de Oceano e Tetis). Embora a Mitologia reconhecesse 7 Helíades, Parmênides, na sua viagem poético-cognitiva, as reduz a duas raparigas que conduzem o carro do conhecimento em que viaja o homem, à maneira de Apolo, segurando as duas bridas dos cavalos. Elas simbolizam as rédeas do conhecimento: razão e experiência, que devem permanecer juntas para que o carro do Sol avance com segurança. (Note-se a bipolaridade do Conhecimento: razão e experiência, que será sagrada pelos grandes Mestres da Filosofia Ocidental, desde Aristóteles e Platão até a contemporaneidade).

As “cocheiras imortais” conduzem, em segurança, o homem na aventura do conhecimento. Docemente fazem com que Dikê, a deusa das Normas, abra as portas da Justiça e guia o carro do Sol em que viaja o homem até a deusa amorosa, Themis, que esconjura a Moira (o Nada), e restabelece a esperança para o homem que avança nas trevas do dia-a-dia.

O reino da Justiça é, para o pensamento grego antigo, a ordem do ser que garante a estabilidade do Cosmo. “Kosmos”, para o gregos, é equivalente de “Ordem Harmónica” e se identifica com a Justiça. A Justiça seria a estabilidade dessa ordem do Ser. Temos, pois, um conceito metafísico de Justiça. Quando se organiza a Pólis, a Justiça desta é pensada à luz da Justiça metafisicamente considerada, como a “ordem cósmica”, refletida na estabilidade das Instituições da Pólis.

3 - Diké, a Poderosa: simboliza o Direito.

O Direito é considerado enquanto Norma que fixa limites ao comportamento dos humanos. Seria a dimensão positiva do mundo jurídico. Ela sozinha, Dikê, é fría e impessoal. Precisa do Coração que tem vivo o legado de Eros, a Força - Amor que movimenta o Cosmo (kósmos, entendido como Ordem Harmônica ou Justa).

4 - Themis, a Deusa Amorosa.

Ela simboliza o Valor Justiça como alma do Direito. Preside a tríade jurídica, se situando no ápice: Themis Dikê Fatos Humanos (aquilo de que os homens gostam). Preside, portanto, o Mundo Jurídico como aquilo que dá vida às Normas e que deve animar aos mortais que se aproximam dela, em busca de Justiça. É uma antecipação metafísica da estrutura triâdica do Direito, na forma em que, na meditação contemporânea, foi formulada por Miguel Reale.

5 - Moiras: eram três, Cloto, Láquesis e Atropos.

São designadas também com o nome de “Parcas”. Simbolizam o destino, contra o qual nada podem fazer os deuses e que encadeia os homens. As Parcas, devoradoras das nossas esperanças, são a representação dos limites em que se encerra o Cosmo. O mesmo Zeus, senhor supremo do Olimpo, deve obedecer à lei por elas estabelecida. Contra o destino cruel e impessoal, se ergue a deusa Themis e o conjunto de Normas que, perante os fatos, promulga Díke, a fim de estabelecer a Ordem Justa no Cosmo. A Justiça é, portanto, para Parmênides, fruto da ação bemfazeja de Themis e Dikê, em face da limitação dos fatos humanos.

6 – Aletheia.

Segundo o tradutor, ela constitui “a verdade fenomenológica da Natureza”, aquilo que nos debe guiar ao agirmos no mundo. A Aletheia é o camino do Ser.

7 - O Homem é iluminado por Themis e Dike.

O homem debe ser o “guardião da palavra escutada”, ou seja, deve manter sempre vivo o Ideal da Justiça e da Norma, a fim de resolver os conflitos de interesses que ocorrem no dia-a-dia dos humanos.

8 - “Pensar e ser é a mesma coisa”.

Já Friedrich Hegel (1770-1831) tinha dito que o mais concreto é a Ideia. Ou seja: não podemos confundir o concreto do mundo da experiência com o Ser. Este tudo permeia e somente se revela à razão, que se eleva do sensível até o mundo das Idéias.

9 - O Ser, embora diferente do devir constante do mundo, está presente nele como condição de existência do Cosmo.

O filósofo convida o leitor a aprender a ver, pelo pensamento, aquilo que é, ao mesmo tempo, ausente e presente, ou seja, o Ser como condição radical de presença de tudo quanto existe no Mundo.

Embora diferente de devir e sobranceiro a ele, jamais o Ser cortará a sua ligação com o concreto da experiência humana (denominado por Parmênides de “o não ser mais”). O Ser dá vida e conteúdo ôntico aos entes. Mas não se confunde com eles. É superior a eles, como a Luz é sobranceira aos objetos iluminados.

10 - Sem a abertura à clareira do Ser simplesmente caimos no Nada.

Desgarrados do Ser, tornamo-nos “bifrontes mortais”, tacanhamente atrelados aos fatos, sem a iluminação do mundo das Ideias. Platão retomará essa temática de Parmênides. Tudo quanto existe no mundo, sem referência ao Ser, virará apenas nome vazio. Ser: é, fundamentalmente, para Parmênides, “igual a si mesmo”.

11 - Parmênides apresenta no seu poema outra tríade, bastante arcaica: Estige (Águas Primordiais), Fêmea e Macho

Estige são as Águas Primordiais que simbolizam as forças opostas presentes no Cosmo e que somente se podem harmonizar à luz de Eros, o Amor Primordial, fonte de energía e movimiento de tudo quanto existe). Eros seria a base de Kosmos, entendido como Ordem Harmônica Universal. Há uma referencia a Kosmos como Ordem Justa mantida pelos deuses. É a ideia de Justiça como fonte de ordem e de permanência, que será trabalhada na década de trinta do século XIX pelos liberais doutrinários franceses, como François Guizot (1787-1874), por exemplo.

Essa idéia de permanência e de ordem aparece, também, neste texto de Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.) que se refere ao Astro Rei: “O Sol é novo cada dia, mas ele não ultrapassa as medidas que lhe são próprias. Se não fosse assim, as Erínias, guardiãs da Justiça, o saberiam encontrar”. Achamos idéia semelhante neste outro texto: “O Fogo se converte em mar e uma metade do mar vira terra, enquanto a outra se converte em nuvem ardente. No entanto, o mar não cessa de provir do mesmo Logos, a partir do qual ele se originou, antes mesmo de que nascesse a Terra” [apud Ladrière, 1967].

12 - O Pensamento é abordado por Parmênides, no seu poema, como eclosão do Mesmo e do Ser.

Recordemos que há duas grandes vertentes Pré-Socráticas: a – Milésios (provenientes de Mileto e das ciudades que receberam a sua influência, na costa do Mar Jônico: Éfeso, Samos, Clazômenas, Abdera). b – Eleatas (situados em Eléia, sul da Itália e nas localidades que receberam a sua influencia: Agrigento – na Sicília – e Tarento no golfo que leva este nome, no sul da Bota Itálica). Ora, os Milésios tendiam à postulação da multiplicidade dos seres, enquanto os Eleatas tendiam à postulação da unidade do Ser.

13 – Dois planos interpretativos do Ser, segundo Aristóteles: a - Unidade Formal (Katá tón Lógon) e b – Unidade Material (Katá tén Hylen).

Essa abordagem do Estagirita aparece no comentário que Aristóteles fez do texto de Parmênides no seu tratado da Metafísica (I, 5, 986b, 18) [cf. Aristóteles, 1989]. O Estagirita destacou dois planos interpretativos do Ser: Katá tón Lógon (do ponto de vista da Unidade Formal) e Katá tén Hylen (do ponto de vista da Unidade Material).

Parmênides estaria situado, segundo Aristóteles, no ponto de vista da Unidade Formal e, nesse terreno, raciocinava com maior profundidade. No entanto, quando Parmênides se situa no terreno do “real objeto da experiência”, no plano dos fenômenos (tois Fainoménois) vê-se obrigado a admitir, ao mesmo tempo, a unidade formal (katá tón lógon) e a pluralidade sensível (katá ten aisthesin), postulando duas causas: Fogo e Terra, de onde decorreriam dois princípios: quente e frio. O quente pertence ao Ser e o frio pertence ao Não-ser. Para examinar a verdade nos seres, temos de nos situar no plano das coisas sensíveis e relaciona-las com o plano das Ideias.

14 - O plano da Teoría, segundo Aristóteles, desligado da experiência, assemelha-se à loucura.

O dia a dia da nossa existência, transcorre entre os fatos concretos apreendidos pela experiência, que são referidos à razão, que os organiza. Lembremos a noção kantiana de Razão, como “Facultade ordenadora do real”.

Quando, no entanto, fechamos a porta à experiência, assemelhamo-nos aos loucos, que só ouvem o seu “demônio interior”, sem atenderem às demandas do convívio com os outros homens, aos quais nos abrimos na experiência.

Já no comentário que Aristóteles tece acerca de Parmênides no seu Tratado do Céu (III, 1, 298b, 14) [Aristóteles, 2000], o Estagirita frisa que a doutrina de Parmênides, ao postular que nenhum ser nasce ou perece, situa-se num patamar (Teoria) diferente da experiência. “Semelhante opinião – frisa Aristóteles – parece-se com a loucura, pelo fato de que deixa de lado os fatos da experiência”.

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Questões para discutir. (Escolha a resposta válida):

1 – O Poema Sobre a Natureza de Parmênides de Eléia corresponde, do ângulo filosófico, a:

a) Um tratado de Cosmologia.

b) Uma abordagem da Ética da polis.

c) Uma Teoria do Conhecimento.

2 – Indique qual é a tríade conceitual que Parmênides de Eléia introduz no seu Poema sobre a Natureza:

a) Ser, Potência, Ato.

b) Themis, Diké, Fatos Humanos.

c) Ar, Terra, Fogo.

3 – O Valor Justiça, no Poema sobre a Natureza de Parmênides, é representado por uma figura mitológica:

a) Themis.

b) Afrodite.

c) Helíades.

Gabarito: 1c; 2b; 3a.