Leônidas Hegenberg, nos seus 87 anos de vida, deixou uma rica herança para a cultura brasileira. Construiu pontes rumo à adequada compreensão do papel da ciência no Brasil. Mas, antes dessa sua preocupação de índole cultural, temos o Leônidas do seu tempo. Viveu numa época em que se formalizava nestas terras a civilização urbano-industrial, em meados do século passado. Enquanto homem do seu tempo, explorou caminhos novos de comunicação com a sociedade e enveredou pela trilha do rádio e, posteriormente, do uso da TV e do computador. Leônidas era um comunicador nato. Voz grave e firme e uma imaginação aberta às novidades da vida, nas narrativas dos vários tipos de comunicação, nas radionovelas, no teatro, na TV e nas suas aulas e palestras. Ele foi um comunicador de grande sucesso.
A professora Marilúze Ferreira de Andrada e Silva, de quem Leônidas foi amigo e orientador na quadra final da sua existência, na biografia que lhe dedicou junto com Flávio E. Novaes Hegenberg, filho do Mestre [cf. Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro, Rio de Janeiro: Editora Pós-Moderno, 2008], mergulhou no estudo da sua atividade radiofónica, destacando o uso das habilidades como locutor na cátedra universitária. “Acreditando que o rádio seria um ‘ancoradouro’ razoável, - frisa a respeito o Mestre Leônidas - ali procurei me firmar. Não repetindo a ‘gritaria’ de alguns radialistas conhecidos, sempre falei de modo pausado e claro, dando ênfase aos textos nos locais que julgava apropriados. Em vista disso, imagino eu, recebi o título de ‘melhor locutor’ (de São Paulo) em 1949. Graças a essa atividade radiofônica implantou-se em mim o gosto pela música (tanto popular, quanto clássica) e, paralelamente, o gosto pela dicção clara, atributo que muito me valeu na vida de professor” [in: Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro, ob. cit., p. 64]. O professor Leônidas quintuplicou o alcance das suas aulas nas ondas do rádio. Explica-se, assim, o grande sucesso que teve na sua cátedra no ITA. Leônidas ajudou a formatar, na cultura aberta à técnica, a opinião pública da sua cidade, São José dos Campos.
Desenvolverei quatro pontos a respeito da figura de Leônidas Hegenberg: 1) Leônidas, o filósofo da ciência no pensamento brasileiro, segundo a acurada análise de Antônio Paim (1927-2021). 2) Leônidas Hegenberg, o “professor”. 3) Leônidas Hegenberg, o professor de Lógica e Filosofia da Ciência. 4) Leônidas Hegenberg e o homem do século XXI: a criação da cultura e a realização da aventura humana.
1) Leônidas, o filósofo da ciência no pensamento brasileiro, segundo a acurada análise de Antônio Paim (1927-2021).
Antônio Paim (1927-2021), o maior historiador do Pensamento Brasileiro, considerava que a principal contribuição de Leônidas Hegenberg consistiu em ter pensado o caminho da Filosofia da Ciência como meio para superar, definitivamente, o extremo do cientificismo, em que tinha ancorado a cultura nacional após o longo ciclo positivista, iniciado com a propaganda republicana e com o seu encaminhamento para a materialização da ditadura científica, efetivada inicialmente no Rio Grande do Sul com Júlio de Castilhos (1860-1903) e alargada ao país por Getúlio Vargas (1883-1954), ao ensejo do princípio do “equacionamento técnico dos problemas”, posto em prática com a chegada de Getúlio ao âmbito nacional, como presidente da República em 1930 e como ditador no Estado Novo, entre 1937 e 1945.
Sintetizando, a grandes traços, a vida intelectual de Leônidas Hegenberg, escreve Paim: “Nasceu em Curitiba a 14 de março de 1925, radicando-se em São Paulo. Cursou Física e Matemática na Universidade de Mackenzie, licenciando-se em 1950, matriculando-se em seguida no Curso de Filosofia da USP, concluído em 1958. Na década de sessenta frequentou o curso de pós-graduação na Universidade da Califórnia (Campus de Berkeley: 1960-1962), doutorando-se em filosofia na USP, em 1966, com a tese Aspectos do problema da mudança das linguagens formalizadas. Seguiu a carreira do magistério” [Paim, Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros, Brasília: Biblioteca do Senado Federal / Salvador-Bahia: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1999, pp. 244-245]. Leônidas Hegenberg ingressou no Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de São José dos Campos, em 1950, a convite do professor Lacaz, na época, auxiliar do chefe do Departamento de Matemática, o professor irlandês Francis Dominic Murnaghan (1893-1976).
No ITA, frisa Paim, o professor Leônidas “chegou a professor titular, chefe do Departamento de Humanidades, e organizou a Revista Ita-Humanidades, que circulou entre 1965 e 1977, prestando inestimável serviço na difusão da contemporânea filosofia das ciências praticada na Europa e nos Estados Unidos. Com vistas ao mesmo objetivo, incumbiu-se da tradução das principais obras dedicadas àquela disciplina, compreendendo autores destacados como Karl Popper, Mário Bunge, Feyerabend, Stegmuller, etc., com antologias e manuais, em geral com a colaboração do professor Octanny Silveira da Mota. Ao todo traduziu cerca de 80 títulos. Ao completar 30 anos de magistério, foi homenageado com o Diploma de Honra pelo ITA e agraciado com a Medalha do Mérito Santos Dumont, pelo Ministério da Aeronáutica. Permaneceu no ITA até 1987, aceitando, subsequentemente, convite para atuar como professor visitante na USP e em outras universidades. Publicou cerca de 200 resenhas na Revista Brasileira de Filosofia, dedicadas a obras relacionadas com a filosofia da ciência, colaborando assiduamente em outras publicações. Pertenceu ao Instituto Brasileiro de Filosofia e a diversas instituições estrangeiras”. [Paim, Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros, Brasília: Biblioteca do Senado Federal / Salvador-Bahia: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1999, pp. 244-245].
Em 1989, Leônidas Hegenberg participou, no Rio de Janeiro, da fundação da Academia Brasileira de Filosofia, ao lado de outros intelectuais de inspiração liberal-conservadora como Jorge Jaime de Souza Mendes, Miguel Reale, Antônio Paim, Ricardo Vélez Rodríguez, Francisco Martins de Souza e Anna Maria Moog Rodrigues.
2) Leônidas Hegenberg, o “professor”.
Na formação do nosso autor como docente, foi decisiva a influência do seu chefe no ITA, o irlandês naturalizado norte-americano Francis Dominic Murnaghan, já mencionado, que desempenhava, justamente, as funções de chefe do departamento de matemática. O princípio adotado por Murnaghan no seu trabalho didático era o seguinte: “Perde o seu tempo e o tempo de seus estudantes, o engenheiro que tenta ensinar matemática; perde o seu tempo e o tempo de seus estudantes, o professor de matemática desejoso de ensinar tópicos de engenharia. As ideias de Murnaghan – frisa Leônidas – nem sempre foram bem acolhidas por seus pares e muitos engenheiros chegaram a combatê-lo com veemência” [Hegenberg, in: Leônidas Hegenberg, um pensador brasileiro ob. cit., p 79]. Vê-se que o ensino da matemática não era, para ele, apenas um meio instrumental na formação de engenheiros, mas constituía, fundamentalmente, um tipo de conhecimento necessário à adequada compreensão da ciência e, em geral, da cultura humana.
Destaquemos que eram quatro os mandamentos que os professores do ITA deveriam cumprir: 1) “O professor espera os alunos”. Murnaghan exigia que os professores estivessem em sala de aula antes da entrada dos alunos. “Queria também – frisa Leônidas- “que nos habituássemos a deixar a sala quando soasse o sinal de saída, respeitando os intervalos entre as aulas”. 2) Murnaghan prescrevia que “todos os docentes ficassem ao dispor dos estudantes, atendendo-os quando procurados, para orientá-los e afastar dúvidas deixadas durante as exposições teóricas”. 3) Uso didático do quadro negro. A respeito, escreve Leônidas: “Como curiosidade, aqui fica um escólio do meu hábito de preparar as aulas de modo meticuloso. Durante o período 1950-1960, usei os nove metros do quadro negro ao meu dispor, cortando-os em ‘fatias’ verticais (de metro ou metro e meio de largura, mais ou menos). Controlando o tempo, chegava ao canto final do quadro, colocava um ponto e precisamente nesse momento soava o sinal de encerramento da aula” [Hegenberg, in: Leônidas Hegenberg, um pensador brasileiro. Ob. cit., p. 80]. Um autêntico refinamento pedagógico e matemático! 4) Por último, destacava-se uma capacidade especial: um dos seus alunos, o engenheiro Jacques Mesquita, “dizia, com admiração, nunca ter tido professor que escrevesse no quadro negro com as duas mãos e terminasse exatamente quando batia o sinal de encerramento”.
Do seu chefe Murnaghan, o nosso autor copiou uma característica especial. A respeito, frisa Leônidas: “Murnaghan escrevia seus cursos, produzindo, assim, diversos livros, alguns publicados no Brasil. Imitando-o, adquiri o hábito de preparar roteiros, – uma ou duas páginas para cada aula -, contendo sumário da matéria, perguntas e exercícios” [Leônidas Hegenberg, um pensador brasileiro, ob. cit., p.81]. À luz dos mandamentos pedagógicos de Murnaghan, um deles, o da pontualidade, o acompanharia pela vida afora, segundo testemunha o nosso autor: “É importante observar as conseqüências das ‘imposições’ do mestre Murnaghan em meu comportamento subsequente. Jamais cheguei atrasado. Em todos os locais em que estive, ministrando aulas, conferências, cursos breves, participando de reuniões, sempre cheguei muito antes da hora. Onde os hábitos iteanos eram ignorados, avisava meus alunos que estaria na sala de aula pelo menos 30 minutos antes da hora, a fim de discutir e esclarecer o que fosse de interesse, relativo à matéria lecionada. Em meus 35 anos de ITA, devo ter faltado no máximo meia dúzia de vezes – porque viajava a serviço ou participava de algum congresso. Nessas ocasiões, deixava um substituto, para que os estudantes não fossem prejudicados” [ Leônidas Hegenberg, um pensador brasileiro, ob. cit., p. 81].
Quanto aos que tiveram a sorte de serem seus alunos, frisa o nosso autor: “Tive centenas de alunos. É claro que só me lembro de alguns. Não teria sentido registrar nomes. Entretanto, pelas mais variadas razões, há nomes e rostos gravados na memória. Entre eles, Jacques Mesquita (turma 57), Armando de Lemos Bittencourt ( 58), João Verdi C. Leite (58), Luiz Sérgio Coelho Sampaio (58), Wolney R. Ribeiro (58), Jean-Paul Jacob (59), Kristo Ivanov (60) Luiz Antonio Capezzuto (62), Arthur Alighieri (74), Luiz Eduardo Penna Fernandes (75), Gilberto Câmara...- profissionais muito bem sucedidos que ocuparam posições de grande destaque em empresas de primeira linha ou se destacaram como pesquisadores de fama. Cabe lembrar que também estiveram em minhas aulas personalidades eminentes como Fernando Mendonça (nascido em 1924 e que foi Fundador e Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais); Ozires Silva (chegou a Ministro); Piva (comandou importantes unidades da Aeronáutica), etc., etc".
3) Leônidas Hegenberg, professor de Lógica e Filosofia da Ciência.
O esforço intelectual de Leônidas Hegenberg, como pensador do papel da ciência na cultura brasileira, dirigiu-se à compreensão do modo em que a ciência moderna tinha-se desvinculado da retórica comteana na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, possibilitando, assim, a livre pesquisa que daria ensejo ao progresso científico num ambiente de liberdade intelectual, superando o dogmatismo do século XIX. Foi de grande importância, para Hegenberg, a sua experiência como aluno de pós-graduação na Universidade de Berkeley, na Califórnia, onde recebeu a influência de pensadores como Paul Karl Feyerabend (1924-1994) (“a figura que mais me cativou”, - frisa Leônidas -) e Alfred Tarsky (1901-1983), no terreno específico da Teoria dos Conjuntos.
Leônidas Hegenberg sintetiza, da seguinte forma, a sua experiência como professor de lógica simbólica: “No ITA, a grande novidade, no começo de 1963, foi a aprovação de minha proposta de introdução, em caráter regular, de cursos de lógica simbólica (lógica matemática), de que me encarregaria durante muitos anos. Desses cursos nasceram nada menos que nove livros (...), inclusive um Dicionário de Lógica, publicado em fins de 1995. Parece que Jorge Junior Barbosa, que, segundo consta, havia estudado com Paul Lorenzen (1915-1994), na Alemanha, também implantou cursos regulares de lógica no Instituto Militar de Engenharia ou na Universidade Federal Fluminense, nessa mesma época (...). Meus programas de lógica matemática, porém, foram aprovados pela Congregação do ITA e se transformaram em cursos regulares – talvez os primeiros do gênero no País”. [Leônidas Hegenberg, in: Flavio Edmundo N. Hegenberg e Mariluze Ferreira da Silva(organizadores), Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro. Rio de Janeiro / São João Del-Rei: Pós-Moderno, 2008: p. 127].
Tendo-se aposentado no ITA após 30 anos de colaboração ininterrupta, a Congregação dessa Instituição concedeu ao nosso autor, bem como a outros colegas que participaram do colegiado durante esse período, o Brasão do Mérito. Embora Leônidas tivesse a intenção de abandonar o magistério, não deixou de atender ao convite feito pela amiga Professora Doutora Lourdes Pavan, diretora do Instituto de Psicologia da USP, o conhecido IPUSP, em Setembro de 1984, para que ali lecionasse Lógica e orientasse teses de doutoramento.
A respeito da sua passagem como docente pelo Instituto de Psicologia, escreveu o nosso autor: “Foi com certo esforço que me ajustei à vida nova, no IPUSP. Jamais cheguei a admitir o clima de greves (inexistente no ITA), de rivalidades (raramente presente no ITA enquanto lá estive), de ‘diz-que-diz’ ou de ‘combates subterrâneos’ (nunca percebido no ITA) que, infelizmente, predomina em muitas escolas (incluindo USP, Unicamp, Unesp). Nesse ambiente, pretendendo adaptar minhas lições às exigências de outro tipo de estudante, meu rendimento, em termos de leituras e publicações, foi relativamente baixo. (...) Se, de um lado, a experiência no IPUSP foi boa, enriquecedora, de outro lado, minha permanência na USP trouxe alguns aborrecimentos. Contatos ocasionais com algumas pessoas vieram corroborar que eram reais as críticas que me haviam sido (e continuavam a ser feitas) por mestres do departamento de Filosofia da USP, assim como por professores do departamento de matemática da USP e, ainda, por mais um ou dois membros da Sociedade Brasileira de Lógica. Posso estar enganado, nas penso que a essas críticas até um mestre da PUC se associou, por motivos que não consigo esclarecer nem compreender. O curioso é que jamais falei mal de quaisquer dessas pessoas e penso nunca ter dado motivos para que se tornassem inimigos. (...) . Isso reforçou, naturalmente, certas deliberações antigas, entre as quais estava a de continuar ignorando o que se escrevia no Brasil. (...). Para resumir, em poucas palavras, o que se passava comigo, noto que sempre admirei Russell, Popper, Quine, Bunge e pensadores afins, ou seja, autores de meridiana clareza no dizer. Ignorei empolados textos de professores da USP e da Unicamp, assim como os artigos publicados pelos famosos da Unicamp” [Hegenberg, in: Leônidas Hegenberg, um pensador brasileiro, ob. cit., pp. 178-181].
No final de 1988, vários Professores de Filosofia e Pesquisadores do Pensamento Brasileiro nos reunimos, no Rio de Janeiro, convidados por Jorge Jaime de Souza Mendes (1925-2013) e Antônio Carlos Villaça (1928-2005) para criarmos a Academia Brasileira de Filosofia, Participamos da reunião, além de Jorge Jaime e Villaça, os professores Antônio Paim, Aquiles Côrtes Guimarães e eu. O professor Paim ponderou que, por se tratar de uma Academia que representaria os estudiosos da Filosofia, deveriam ser convidados a formar parte dela pessoas que se destacassem, nas várias regiões do País, no culto à Filosofia, sem impedimentos de cunho ideológico. Tratava-se, portanto, de uma Instituição de âmbito nacional e eminentemente plural. Foram sugeridos nomes provenientes do conservadorismo, do liberalismo, do marxismo e de outras ideologias, das várias regiões do Brasil. Dentre os candidatos de esquerda, por exemplo, foi cogitado o nome de Frei Leonardo Boff (um dos fundadores, no Brasil, da Teologia da Libertação) e da professora Marilena Chauí, da USP. O padre Boff e Marilena Chauí não aceitaram o convite, confirmando, aliás, a índole intolerante da esquerda radical brasileira.
Dentre os estudiosos da Lógica Moderna e da Filosofia das Ciências, foi pensado o nome de Leônidas Hegenberg, o grande Mestre do ITA. O nosso autor escreveu acerca do convite recebido: “Por carta, fui informado de que (por voto unânime dos organizadores) seria membro efetivo da Academia, ocupando a cadeira 27 – ‘José Bonifácio’. O respeito que sempre tive por Paim e a presença do professor Reale na sociedade foram decisivos: aceitei a honraria. Até 2003, mais ou menos, meu contato com a Academia limitou-se a duas ou três conversas com Jorge Jaime, em quem admirei o forte desejo de escrever capítulos de uma grande história da filosofia brasileira. Na verdade, os quatro volumes dessa história foram publicados anos mais tarde, a partir de 1997 (...). A Academia de Filosofia ficou alguns pares de anos em lutas para firmar-se. Em 1998, as coisas ganharam melhores perspectivas. No século XXI, com sede nova (na Casa de Osório) a ABF, enfim, consolidou-se e ganhou prestígio. Várias iniciativas em prol da Academia se devem aos esforços de João Moderno que lá ingressou para, em seguida, conquistar a presidência da entidade. Moderno tem atraído para a Academia um apreciável número de escritores e tem ajudado a admitir, como associados, várias personalidades ilustres, inclusive cientistas – que honram a entidade, apesar da pequena ligação com a filosofia” [in: Leônidas Hegenberg, um pensador brasileiro, ob.cit].
Nos anos 60, Leônidas Hegenberg foi aceito como membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, passando a colaborar, com artigos e recensões, na Revista Brasileira de Filosofia dirigida por Miguel Reale (1910-2006). Colaborou, também, com outra revista de inspiração liberal-conservadora: Convivium, publicada por Adolpho Crippa (1929-2000) em São Paulo. Por essa mesma época, o nosso autor iniciou a sua colaboração regular com o Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo. A respeito desses trabalhos de colaboração, escreveu Leônidas: “Metódico, habituado a fazer as coisas com muita regularidade, das 7 da manhã às 10 da noite, nunca me faltava tempo, animadamente gasto em leituras e escrevinhações. O Suplemento Literário de O Estado, a Revista Brasileira de Filosofia e a Convivium recebiam minhas colaborações, remetidas em torrentes ininterruptas”.
A respeito do diretor da Revista Convivium, o professor Crippa, que era filósofo e teólogo, frisa nosso autor: “Conheci Adolpho Crippa, Diretor da Sociedade Convívio, em 63. Conversamos em seu escritório quando me preparava para morar em Assis. Sempre me dei muito bem com ele. Depois de nossa conversa (que se repetiria muitas vezes, na sede da sociedade e um par de vezes em sua residência, num apartamento de esquina, junto à Avenida Angélica), passei a escrever regularmente para a revista Convivium. Muitas pessoas consideravam a Sociedade Convívio como entidade de ‘clara atuação direitista’, oposta à tendência dos grandes centros universitários. Não acreditei muito nas opiniões dessas pessoas. As atitudes de Crippa sempre me pareceram equilibradas e a minha natural aversão pela política me impedia de concordar com seus detratores. Suponho que essa atitude (no meu entender) ‘estreita’ dos críticos da Convivium, adotada por muitos estudiosos da USP, da Unicamp e de boa parte das universidades federais e das Faculdades do interior paulista os levou a ‘repelir-me’, colocando-me entre os ‘reacionários’ – pecha que, aliás, já me era atribuída por força do interesse por lógica, disciplina ‘essencialmente anti-democrática’...” [in: Leônidas Hegenberg, um pensador brasileiro, ob. cit., p 127].
4) Leônidas Hegenberg e o homem do século XXI: a criação da cultura e a realização da aventura humana.
O nosso autor chama a atenção para o pecado atual da sociedade: o menosprezo pela inteligência e pelo seu fruto, a cultura. A respeito, frisava Leônidas: “Comum é ver-se, em nossos dias, manifesto desprezo pela inteligência, desconfiança no espírito. Essa maneira de ver as coisas fere de frente o que uma Faculdade representa. Uma Faculdade é a inteligência feita instituição, alçando-se como genuíno, exclusivo e autêntico poder espiritual. Foi o amor pela inteligência como tal, pura, nua, que ensejou e que facilitou uma aproximação, permitindo que surgissem as universidades. Esse clima favorável, criado pelo amor à inteligência, parece vir decrescendo em nossos dias, fazendo-se ameaçador o ambiente. E talvez que à inteligência mesma caiba por isso alguma responsabilidade. Seu erro e seu pecado lembram os de Lúcifer. Sentindo-se firme e forte, havendo-se por soberana, ela proclamou seu ‘non serviam’ (não me submeterei) e quis moldar tudo a seu gosto, impor-se a tudo” [in: Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro, ob. cit., p. 72].
Essa atitude de rebeldia deu começo, na Modernidade, à ideia fatídica de ruptura radical com o passado da cultura e da civilização. A razão, nos tempos modernos, ao ensejo da Revolução Francesa, proclamou em alto e bom som a sua independência absoluta da tradição, que preservava os valores sedimentados na Idade Média. A razão, desenraizada da história da cultura ocidental, pretendeu se erguer como nova gnose salvífica e converteu-se em deusa do homem e do seu universo, quebrando os laços com o passado. Dias, Meses e Anos, no folia revolucionária, passaram a ser contados como surgidos das luzes científicas da razão. A história virou narrativa dos líderes do processo revolucionário, os jacobinos, que tudo submeteram aos seus caprichos e abstrações, impondo, com as palmas dos burgueses, o pior dos absolutismos, aquele decorrente do frio culto do poder total nascido no berço de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que apregoava uma soberania absoluta, no terreno social, sob a luz fria da razão, encarnada no Legislador, o zeloso vigilante do ideal democrático, banindo qualquer dissidência. A obra Do Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau (1762) converteu-se na bíblia do Poder Total.
A respeito desse descaminho das coisas humanas, escreve Leônidas: “O homem, porém, não é apenas conhecer. Limitar-se ao conhecer é atrofiar-se, é pecar contra a plenitude possível. E é o que torna tão pouco estimável o místico. Não é possível desdenhar o que ele vê pela simples razão de que apenas ele o vê. Não impera no mundo do saber uma lei a estipular que só é verdadeiro o que todas as pessoas conhecem. Mas, se isso é verdade, verdade é também que pela impossibilidade de transmissão, o saber místico aparece como algo falho, proporcionando a visão desoladora das coisas incompletas” [in: Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro, ob. cit., p. 72].
Acontece, frisa nosso autor, que “o Homem não é apenas conhecer – é conhecer e agir. Frente ao contorno hostil que o envolve, o Homem sente-se como um náufrago. Naufragar, porém, não é afogar-se. E é compatível à agitação frenética de braços de náufrago a atividade que o ser humano exerce para manter-se no mundo e mercê da qual constrói a cultura” [in: Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro, ob. cit., p. 72]. Somos projetos de nós mesmos, na busca da nossa consciência e liberdade. Quais são os contornos dessa luta pela sobrevivência? São estes, responde o nosso pensador: “Toda vida humana tem uma dimensão de liberdade e outra de fatalidade. Dimensão de fatalidade, pois não se vive em abstrato, mas aqui e agora, frente a circunstâncias determinadas. Dimensão de liberdade que a caracteriza e situa em singular posição frente a tudo. À pedra e ao animal é dado feito o próprio ser. O ser humano, entretanto, faz-se, movendo-se, livremente, dentro de sua dimensão de fatalidade. A todo instante estamos decidindo o que vamos ser ou - o que é o mesmo - o que vamos fazer no instante seguinte. Resta-nos apenas eleger nosso caminho, escolher nossa tarefa” [in: Leônidas Hegenberg: o pensador brasileiro, ob. cit., p. 72].
A cultura, para Leônidas Hegenberg, constitui um problema eminentemente pedagógico. Consiste na tomada de consciência da nossa singularidade ontológica e daquelas tarefas que devemos desenvolver para nos tornarmos plenamente humanos. A respeito, o nosso autor frisa: “Só pode o Homem acumular o manancial de conhecimentos de que hoje dispõe graças ao dom de que desfruta, de transmitir as experiências feitas. O animal começa exatamente onde começam seus semelhantes repetindo tentativas cingidas ao campo do instinto. Mas o ser humano não vive apenas de sua experiência, aproveita a experiência de gerações e gerações que o precederam e, sem repetir os passos ensaiados, é capaz de caminhar livremente apoiado nos êxitos conseguidos. É singular e específica a posição que o Homem ocupa no Cosmo, frente às coisas que o rodeiam. A diferença é bem traduzida pela afirmação de que as coisas se situam na e o ser humano perante a Natureza. Um frágil caniço que a aragem branda verga e faz tremer, mas que é, não obstante, superior a tudo porque (é) capaz de tudo abranger pelo pensamento”.
Já o mundo natural, segundo pensa o nosso autor, “é soberanamente dominado pelas leis da causalidade, enquanto que o da cultura lhe acrescenta sempre uma finalidade intencional. O mundo da cultura é mundo de intenções, uma tentativa universal e contínua de realização de valores. O labor de uma época aproveita à seguinte que deste se utiliza par alçar-se mais e enxergar mais longe. E por tudo isso o problema da cultura é acima de tudo problema de transmissão. É o mesmo que afirmar que se trata de problema pedagógico. Ordem de ideias que faz evocar de pronto a figura do professor a quem incumbe a tarefa de preservação e transmissão dos valores culturais. Há que transmitir aos pósteros o que o passado legou e a contribuição cultural dos contemporâneos há que lhes dar como herança o patrimônio da espiritualidade armazenado pela espécie, através da História. Tarefa árdua e magnifica!”. Leônidas conclui assim o seu arrazoado acerca da cultura: “Chegou a nossa vez. Com esse passado, é uma alegria enfrentar o futuro. E, se no cumprimento do papel que nos cabe, viermos a separar-nos fisicamente, seremos, apesar dos fados, uma só e mesma família, unida para o mundo ideal, pois para o coração não há passado, não há presente, não há ausência....” [in: Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro, ob. cit., pp. 72-73].
O nosso autor faz menção, para terminar, à escolha do magistério, feita por ele e pelos seus colegas, ao receberem o diploma de bacharéis na Universidade Mackenzie em dezembro de 1949: “Os oito que nos formamos hoje, frisa nosso autor, inclinamo-nos pelo magistério. Não pretendemos que seja considerada a mais importante a atividade escolhida. Sentimo-nos justificados ante nós mesmos, advertindo que é aquela para a qual mais capazes nos sentimos. O afeto que para ela nos move é o mais vivo que encontramos no coração. Trata-se de uma eleição por amor intelectual. Os ensinamentos que nos foram ministrados hão de frutificar – acreditamos – e, levados por nós, como o polem fecundo pelo vento, farão brotar messes longínquas e esplêndidas. E ao lado dos conhecimentos, hão de mostrar-nos, também, os exemplos de nossos mestres, exemplos que doravante não mais contemplaremos cotidianamente, mas em que havemos de mirar-nos sempre” [in: Leônidas Hegenberg: um pensador brasileiro, ob. cit., pp. 72-73].
Destaquemos que a escolha do magistério, da profissão que ensina por amor ao próximo, à ciência, à educação, às Humanidades em síntese, foi uma linda opção que acompanhou ao nosso autor ao longo da vida. Encerro este meu comentário sobre o grande brasileiro que foi Leônidas Hegenberg, com o seu próprio testemunho das atividades de docência das Humanidades, com as quais deu fecho de ouro às suas emocionantes aventuras como professor: “Depois do doutoramento, as coisas fluíram sem contratempos aparentes. Retornei ao ITA, para ali trabalhar em regime de dedicação exclusiva. Minhas tendências filosóficas me levaram, com naturalidade, à chefia do Departamento de Humanidades. Chefiei-o até aposentar-me. Deixei clara a ambição de imitar o que se fazia em um MIT. Desejava ter a colaboração de renomados professores convidados, ministrando cursos obrigatórios ou optativos de filosofia (conhecimento, valores), ciências (história, sociologia antropologia, psicologia,...) e letras (língua, literatura e cultura - no mínimo a inglesa e a francesa ou a alemã)”.
“Consegui levar para o ITA alguns professores que justificariam meus propósitos, ministrando cursos de indiscutível qualidade (e, talvez, de grande proveito). Entre eles, Pierre Pilon (francês), Virgílio Noya (história), Vilém Flusser (filosofia), R. N. Champlin (valores) e Max Boudin (antropologia). Também levei ao ITA alguns conferencistas que muito honraram o Instituto com a sua presença. Apenas para exemplificar, cito Carlos da Silva Lacaz, Clodovaldo Pavan, Miguel Reale e Yves Gandra Martins. Acolhi ministros, reitores, empresários famosos. Meus sonhos (como será preciso classificar tal ambição) tiveram o apoio de alguns colegas otimistas. Fernando Pessoa Rebello era o mais entusiasta.
“De indecisão foi a atitude da maioria dos companheiros de departamento (Obemor P. Damasceno, Hélcio S. Marcossi, Antonio Marussig) – que ocasionalmente tomavam iniciativas para ajudar, embora não influíssem na Congregação do ITA”.
“Não foram poucos os que se opuseram (às claras ou não) aos meus planos. Segundo soube mais tarde (já aposentado), um colega do departamento e o chefe da divisão de ensino eram dois de meus declarados oponentes. Não me espantou a atitude deste. Como engenheiro, desejava canalizar verbas para cursos técnicos, vendo com olhos críticos o desvio de dinheiro para atividades de menor importância. Acresce que me considerava elemento estranho numa escola tecnológica, achando que meu lugar era a filosofia. Espantou-me a oposição do colega de departamento. Coisas da vida...”.
A respeito dos seus contatos na área das Humanidades, do ângulo dos estudos sobre religião, informou nosso autor: “Aproximei-me, nesses tempos, de Russell Norman Champlin (1933-2018), (que era estudioso da teologia bíblica pelas Universidades de Utah e Chicago, tendo se radicado como missionário evangélico em Guaratinguetá, no interior de São Paulo - anotação nossa - ). Ele me ensinou certas coisas da teoria dos valores que se tornariam úteis para a análise de muitos livros. Mais importante do que isso, porém, foi o apoio que ele e a esposa, Irene, me ofereceram, durante uma fase atribulada, cheia de contratempos – apoio que durou até 1994 e que não terei palavras para agradecer adequadamente. Champlin retornou aos EUA em 1997 e nunca mais deu notícias”.