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DITADURA REPUBLICANA, POSITIVISMO, TOTALITARISMO

Este texto pretende analisar os principais aspectos que levam à compreensão da Ditadura Republicana, proposta pelo Apostolado Positivista no início da República e retomada em outros momentos, inclusive na atual encruzilhada de ditadura do MST e do PT. Na exposição analisa-se a gênese histórico-ideológica da Igreja Positivista Brasileira, salientando as origens do messianismo político e o conteúdo doutrinário do Apostolado Positivista. No final, destaca-se o entroncamento do autocratismo positivista, nas suas visões radicais dos séculos XX e XXI, com o Totalitarismo, na famigerada "Teologia da Libertação", pregada aos quatro ventos por Lula, o padre Boff e outros arautos da maluquice escatológica..

A “Religião da Humanidade”, fundada por Augusto Comte (1798-1857) deita raízes no fenômeno do “messianismo político”, que se consolida na obra e na escola de Claude-Henry de Saint-Simon (1760-1825). Por isso, antes de fazermos uma síntese da “Religião da Humanidade”, que constitui a vertente religiosa do Positivismo e na qual se inspirou a Igreja Positivista Brasileira, convém salientar os traços marcantes do messianismo político saint-simoniano. Na sua obra intitulada: Messianismo Político, J. L. Talmon faz uma completa caracterização do saint-simonismo como doutrina que influenciou, no decorrer do século XIX, nas restantes manifestações do fenômeno messiânico, que empolgou o pensamento de autores tão variados quanto Augusto Comte (1797-1858), Jules Michelet (1798-1874), Giuseppe Mazzini (1805-1872) e o próprio Karl Marx (1818-1883).

O conde Claude-Henry de Saint-Simon estava animado por um profundo sentimento apocalíptico, que o fazia predizer o nascimento de uma religião universal, que impusesse a organização pacífica da sociedade. À Revolução de 1789 ele tinha assistido passivamente, como observador arguto, em que pese o fato de ter sido eleito, em 1790, como presidente da assembleia eleitoral de sua comuna, o que motivou a renúncia ao título de nobreza. A Revolução Francesa não foi, no sentido do filósofo, evento regenerador, mas um espetáculo de destruição, de inútil debate e de desordem social.

Na procura de um princípio total que permitisse a explicação racional do universo, Saint-Simon termina professando uma visão determinística do homem. Nesse contexto, a sociedade é concebida como uma “verdadeira máquina organizada”, ou como um organismo que, ao longo dos tempos, criou os próprios órgãos para adaptar-se às diversas situações. A unidade inteligível da História não é nem o Estado, nem a Nação, nem a sociedade organicamente considerada. As suas forças e processos não são criação deliberada de ninguém, mas fruto do organismo social.

Analisando as mudanças ocorridas na sociedade europeia e, particularmente, na França, a partir da Revolução de 1789, Saint-Simon considera que o organismo social caminha, inexoravelmente, rumo à organização científica, com a emergência da Sociedade Industrial. Tal sociedade se caracteriza, basicamente, por duas notas: em primeiro lugar, esforço produtivo industrial e objetivo, pois os seus elementos são mensuráveis e tangíveis para todos, e o seu funcionamento é uma questão de precisão e de disciplina de caráter científico. Em segundo lugar, trata-se de uma organização com um grau máximo de integração, o que realça, justamente, o caráter orgânico da sociedade.

Logo após a morte de Saint-Simon, os seus discípulos encarregaram-se com verdadeiro fervor religioso, de continuar a obra do mestre, instaurando a almejada Igreja. Quatro elementos podemos assinalar em relação à Igreja Saint-simoniana: a sua projeção apostólico-missionária, o componente hebraico, a presença do dogma e o autoritarismo. Convém salientar o componente hebraico da seita saint-simoniana. Os principais membros eram judeus: o primeiro apóstolo, Benjamin Olinde Rodrigues (1795-1851), matemático e banqueiro de uma família de judeus sefarditas da cidade de Bordeaux e o seu irmão mais novo, Eugênio. Outros apóstolos da seita eram os irmãos banqueiros Émile (1800-1875) e Isaac Pereira (1806-1880), Gustave D´Eichthal (1804-1886), o poeta Léon Halévy (1802-1883), Moisés Renaudet e Félicien David (1810-1876).

Talmon considera que dois fatores levaram os judeus a procurarem a seita saint-simoniana: em primeiro lugar, o messianismo político apresentado pelo mestre; em segundo lugar, a conciliação que a religião de Saint-Simon fazia entre vida espiritual e sucesso econômico. Esses dois fatores juntavam-se e geravam a esperança de fazer surgir um Estado que congregasse os judeus dispersos e que, ao mesmo tempo, lhes conferisse o papel de elite religiosa e financeira.

Um aspecto que merece ser salientado é o do messianismo que empolgava as comunidades judaicas e que teria influenciado no próprio Karl Marx (1818-1883), através da versão política saint-simoniana. O dogma formava parte essencial da nova religião. Podemos entende-lo em duas etapas que se complementam. Em primeiro lugar, era reconhecida a existência do dogma científico, de caráter intelectual cuja essência só poderia ser compreendida por uma classe muito reduzida, uma elite intelectual “eminentemente ativa na ordem especulativa”, que se dedicaria ao estudo das Ciências Sociais e que seria capaz de analisar o dogma científico. Essa elite comporia a “autoridade competente” que estaria incumbida do governo “da opinião”. A essa elite pertenceriam os “savants positifs” em primeiro lugar, e também os industriais. As massas só teriam uma incumbência em relação a essa elite: “renunciar à demonstração” e “aceitar a nova doutrina” como no passado, de uma forma dogmática.

Contudo, o dogma intelectual deve se alicerçar, por sua vez, no dogma religioso, do qual depende, aliás, a aceitação do primeiro por parte do homem total, incluindo o sentimento. Mediante o dogma religioso, ou melhor, através da imposição do mesmo a todas as mentes e vontades, conseguir-se-á a unidade do todo social e a unidade final do universo.

O autoritarismo é a última característica que desejamos salientar em relação à Igreja saint-simoniana. Se o dogma científico deve estar alicerçado no dogma religioso, e se a cada dogma corresponde uma elite que regula o conteúdo dogmático ou doutrinário, é claro que este último deve ter a sua hierarquia. A lei escrita não é necessária. O “autêntico líder” é uma lei viva. E isso basta. Todo o problema radica, então, em saber quem é o líder verdadeiro. O critério, absurdamente surrealista, está muito longe do pretendido cientificismo saint-simoniano. “O autêntico líder – frisa Talmon – é aquele que sente a unidade do universo com maior intensidade do que os outros, aquele cuja fé, cheia de afirmação e de amor, lhe dá um poder excepcional, sobrenatural inclusive, para partilhar a sua experiência com os outros. É aquele que tem a capacidade mágica de unir os homens numa fé e num amor estáticos. O líder é, sobretudo, um vidente, um profeta. A sua experiência da unidade universal é tão elevada que o capacita para captar indícios proféticos em relação com o significado da época e a forma futura das coisas. A sua necessidade mais urgente, e a sua missão sagrada, é a de revelar os mistérios que lhe foram descobertos sobre os destinos sociais dos seus contemporâneos”.

Desse caráter divino e místico – absolutamente subjetivo – do líder, deriva o seu autoritarismo. Ele não será indicado por nenhum processo consensual. A sua autoridade é puramente carismática. E se autolegitima. A autoridade impõe-se por si mesma. Nem discute, nem ensina. Obriga, arrasta.

Não poderíamos terminar este item sem mencionar, ainda que rapidamente, as fontes inspiradoras da religião saint-simoniana, bem como o seu efeito mais importante: o totalitarismo. Isso nos dará uma base suficiente para avaliar a verdadeira significação da “Religião da Humanidade” de Comte, bem como a da Igreja Positivista Brasileira. O “Nouveau Christianisme” de Saint-Simon inspira-se na Religião Civil que o filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) propôs na última parte da sua obra Du Contrat Social (1762). Partindo do fato da desigualdade humana criada pela sociedade, o filósofo salienta que só no surgimento de uma Religião Civil, que unifique as mentes e as vontades ao redor do Estado, poderá ser conseguida a ordem social e política. Como Rousseau reconhece, ele é inspirado, em parte, pela proposta do poder único e indivisível em mãos do Estado, que Thomas Hobbes (1588-1679) tinha formulado na sua obra intitulada: Leviatã, ou matéria forma e poder de um Estado eclesiástico e civil (1761), para superar o estado de “guerra permanente” ou insegurança coletiva.

A pretensão rousseauniana e saint-simoniana de buscar a unidade da sociedade, sob a direção de um poder total, espiritual e temporal, é o nascedouro do totalitarismo hodierno. Por paradoxal que possa parecer – como frisou Talmon na sua obra: As origens da democracia totalitária – o totalitarismo ínsito no messianismo político surgiu, não porque a filosofia da Religião Civil rejeitasse os valores do século XVIII do individualismo liberal, mas porque, desde o começo, mantinha perante eles uma atitude perfeccionista demais, ao fazer do homem um ponto absoluto de referência. O homem tinha de ser liberado, mas não apenas das suas limitações históricas. Todas as tradições existentes, as instituições estabelecidas e as ordenações sociais, tinham ser derrubadas e refeitas, com o único propósito de garantir ao homem a totalidade dos seus direitos e a liberdade.

Esse esforço de libertação implicou, historicamente, duas coisas: em primeiro lugar, a declaração de um estado de guerra provisório contra tudo aquilo que impedisse a liberação humana e, em segundo lugar, um “esforço por reeducar as massas, até que houvesse homens capazes de querer livremente e com plena vontade o seu verdadeiro querer”. Esse estado de guerra e esse esforço educador justificam a utilização da compulsão por parte de uma elite, que suspenderia a liberdade e manteria o estado de guerra, enquanto houvesse alguma oposição e a sociedade não fosse plenamente unificada. O jacobinismo seria, na França, a primeira manifestação dessa violência.

A evolução desse projeto de dominação global é o atual totalitarismo, cuja única meta consiste, como frisa Hanna Arendt (1906-1975), na “total dominação do homem” e cujos pressupostos são a existência de uma única autoridade, um único estilo de vida, uma ideologia em todos os países e em todos os povos do mundo. Assim, o expansionismo totalitário é a consequência imediata da dimensão universalista e avassaladora da religião salvadora, que leva a elaborar uma “ideologia total” incompatível com uma concepção matizada e não dogmática da sociedade.

Em tempos de campanha eleitoral, o pano de fundo da pregação de Lula é o velho princípío do messianismo político pregado originariamente por Saint-Simon, depois por Karl Marx e, no nosso combalido Brasil, pela Teologia da Libertação, que constituiria uma espécie de alma do "Foro de São Paulo", criado por Lula e por Fidel Castro nos anos 90 do século passado, para dar vida ectoplasmática ao comunismo, que naufragava na União Soviética e no bloco comunista. Esperamos que o eleitorado brasileiro, consciente da falsidade do messianismo político, coloque as promessas de Lula no lugar que lhes corresponde: o saco de lixo da História!

BIBLIOGRAFIA

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