Voltar

ALFONSO (1947-2019)



Revivo aqui várias lembranças, comuns a mim e aos meus irmãos. Talvez, a vivência mais enraizada na minha memória das origens seja a da dupla circunstância campo - cidade. Comecei os meus dias nesta última. Lembro-me do meu lar, na calle 63b, n° 25-25, do bairro Muequetá, vizinho do chique bairro Chapinero, no norte de Bogotá. As minhas primeiras lembranças são da casa paterna, de estilo espanhol, construída pelo meu pai com a ajuda de um arquiteto russo, cujo nome (Boris Sigoronov) ele apagou da placa de pedra em que estava escrito. Esse arquiteto estava exilado na Colômbia e chorou, amargamente, a morte do "paizinho", quando o cruel ditador Stalin faleceu, em 1953. Essa bela residência de dois andares foi o cenário dos meus primeiros anos de vida.

Recordo-me, ainda, do terror das noites, no início da guerra civil, após a morte do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, ocorrida em 9 de abril de 1948, quando eu tinha 4 anos de idade (iria completar os 5, somente em novembro). O quarto que compartia com o meu irmão Alberto, nesses dias violentos, dava para a rua. Lembro-me do meu pai, empunhando a carabina Winchester e empurrando o velho armário de madeira e colocando-o em frente à janela, de forma a bloquear, com ele, a entrada das balas e dos reflexos vermelhos provocados pelo incêndio do Colégio Maior Nossa Senhora do Rosário, na Quinta Mutis, que ficava defronte à nossa residência. O meu velho passou a noite postado numa janela entreaberta do cômodo vizinho, que servia de oratório, a fim de atirar contra os revoltosos que tentavam jogar panos embebidos em gasolina contra as janelas de madeira, a fim de provocar um incêndio. Dessa noite de corajosa vigília, o meu pai ganhou uma ciática que o atormentou pelo resto da vida. Lembro-me do pavor que senti com o incêndio e com o tiroteio na rua. Lembro-me dos meus irmãos Alberto, María Victoria, Alfonso (ainda, de colo) e eu refugiados com a minha mãe, embaixo da cama, para nos protegermos das balas perdidas. Lembro-me dela, rezando aquela velha oração que começava assim: "Senhor Deus onipotente, em vossas mãos estão postas todas as coisas, se quiserdes salvar o vosso povo nada poderá se opor à vossa vontade...". A nossa residência tinha virado alvo dos revolucionários “gaitanistas”, pelo fato de a minha mãe ser filha do general Amadeo, um dos principais líderes conservadores. A nossa residência era vizinha da que foi casa do meu avô, separada dela apenas por um lote. 

Para fugir da guerra, fomos morar na casa da velha fazenda "El Carmen", situada a poucos quilômetros da cidadezinha de La Calera, nas montanhas, ao oriente de Bogotá, que o meu avô Amadeo tinha herdado dos seus pais. Ali, na velha casona espanhola de quinze cômodos, que datava da segunda metade do século XIX, nos refugiamos, após a sanguinolenta semana que se seguiu ao assassinato de Gaitán e que se conheceu como "El Bogotazo". Vivemos, eu e os meus irmãos, dias de plena liberdade no campo. Corríamos pelas verdes pradarias que circundavam a enorme casa da fazenda, feito cabritinhos soltos. 

Observo, hoje, ao olhar para as fotografias da época, duas cenas: quando chegamos, e alguns meses depois. Na primeira, aparecemos de mãos dadas, com chapeuzinhos bem colocados nas nossas cabeças, como galãs de telenovela que posam para os fãs. Na segunda, aparecemos com o rosto queimado pelos ares andinos e pelo sol das manhãs passadas brincando em meio às plantações de trigo, com ar de molequinhos camponeses. 

"El Carmen" foi o nosso refúgio para a violência que se vivia em Bogotá. Ali conhecemos outra dimensão da vida, com as vacas leiteiras do rebanho que o meu pai tinha, com o estábulo, com as instalações para refrigeração do leite, com a "queijeira", onde os trabalhadores preparavam os queijos e as manteigas, com a feirinha dominical na praça de La Calera, após a missa, com o meu pavor pelos foguetes domingueiros e de Natal que faziam, para mim, um barulho ensurdecedor. Lembro-me das noites de festa de Natal e Ano Novo, eu refugiado, embaixo da cama, para me proteger do barulho dos foguetes, com a companhia fiel do cachorro preto "Temerón", medroso como eu.... 

No jantar oferecido, em julho de 2017, pelo primo Joaquín, no seu apartamento, situado no belo bairro residencial de “Rosales”, ao nordeste de Bogotá, estivemos presentes os quatro irmãos ainda vivos: Marisa, Alfonso, Gabriel e eu. Foi uma ceia maravilhosa, em que pudemos recordar velhos tempos, de quando morávamos em Medellín, nos anos 60 do século passado, ou de quando vivíamos na Fazenda El Carmen, no final dos anos 40 (ainda, Gabriel não era nascido, pois, sendo o mais novo, a sua data de nascimento é 21 de novembro de 1953). Revivemos, também, os anos que passamos na nossa casa de Muequetá, em Bogotá.  

Foi maravilhoso encontrar os meus irmãos. Esse, certamente, constituiu o principal motivo que me levou a programar a ida à Colômbia. Dou graças a Deus por ter conseguido encontrá-los e conviver com eles, embora por poucos dias. Gozado como, quando nos vemos depois de tantos anos, parece que a última vez foi no dia de ontem. É uma vivência emocional que nos enriquece e que se sobrepõe ao fluir do tempo. 

Após esse encontro com os irmãos, acrescido pelo convívio com Joaquín e os outros primos, fiquei renovado. Foi como se tivesse carregado as pilhas do coração! O amigo Thiago, psicólogo, dizia-me que gostava de me ver tão animado, após a viagem à Colômbia. Só faltou a companhia do meu filhinho Pedro e a da minha querida Paula. A companhia da filha Vitória foi, para mim, muito gratificante e ela, também, curtiu, à beça, ter encontrado os seus primos e tios. 

Alegrou-me ver todos os irmãos realizados nas escolhas que fizeram na vida: Alfonso, que se formou em Filosofia, como eu, mas que enveredou, na pós-graduação, pelo Desenvolvimento Organizacional, especialidade que exercia nas suas assessorias junto à Universidade EAFIT, de Medellín. Marisa, advogada por vocação, que trabalhou muito duro para organizar a sua clientela, quando, ainda, era profissional engajada em Cali, na Colômbia, antes de ir para os Estados Unidos, nos anos 2000 e que, no Canadá, revalidou os seus estudos para trabalhar na área do Direito Imobiliário, mas, que curte, especialmente, os seus trabalhos de fino artesanato, na criação de bijuterias. Gabriel, que escolheu a área da Engenharia Eletrônica, tendo-se formado na Universidade de Antioquia e que, ainda, jovem profissional, deu provas de grande capacidade na fabricação e montagem de aparelhos, na área da biomedicina. Desempenha, atualmente, a sua profissão, com sucesso, no Canadá.  

Admiro os meus queridos irmãos e fico feliz pelas suas realizações familiares, também. Alfonso, com os seus quatro lindos filhos e avô de vários netinhos. Marisa, com duas filhas maravilhosas, Lina e Anita, cada uma com as suas escolhas muito bem-sucedidas: Lina, no Canadá, numa grande empresa de produtos químicos, e Anita como produtora de vinhos no sul da França, nesse pequeno paraíso que é Quarante, a cidadezinha medieval fundada por Carlos Magno, por volta do ano 800. Gabriel com os seus filhos já profissionais, Ricardo, engenheiro aeroespacial, que trabalha numa subsidiária da empresa Bombardier, no México, e Esteban, administrador, que trabalha na Universidade de Toronto; e com os lindos netinhos, filhos da Juliana, a filha mais velha, que mora nos Estados Unidos. Gostei de encontrar, junto com Alfonso e Gabriel, as suas esposas, Eugênia e Beatriz. Encantou-me reencontrar o marido de Marisa, Alejandro, engenheiro bem-sucedido no Canadá. Todos eles, maridos e mulheres, ainda com aparência jovem, apesar dos anos que não podemos negar.  

Volto no tempo para recordar os irmãos que partiram: Ricardito, meu xará, falecido um ano antes de eu nascer, em 1942; María Victoria, falecida, prematuramente, em 1982, com 37 anos, Alberto, o irmão mais velho, falecido em 2004, com 64 anos e Alfonso, falecido recentemente, em Medellín, no dia 28 de dezembro de 2019, com 72 anos. 

A Medellín dos anos 60 e 70 foi a cidade da minha boemia tardia. Vivi as aventuras juvenis em companhia do meu querido irmão Alfonso, quatro anos mais novo do que eu, e do primo Joaquín, que viveu conosco, ao longo desses anos, pois fazia o curso de piloto na empresa SAM (Sociedade Aeronáutica de Medellín), para pilotar os famosos Electras, aqueles turboélices quadrimotores para 98 passageiros e três tripulantes que tinham, na parte de trás, uma hollywoodiana sala de fumantes. Eram os famosos Lockheed L-188. Joaquín se integrou às nossas aventuras boêmio-acadêmicas. 

Alfonso tinha saído do Instituto Tihamer Toth, alguns anos depois de mim, e, como era formado em Filosofia, tratou de conseguir aulas na Universidade. Demorou a realizar o seu sonho acadêmico e começou a vida profissional como vendedor, talvez influenciado pela minha experiência na Editora Aguilar. 

Dos meus irmãos, Alfonso tocava violão e Gabriel ainda pratica essa habilidade artística. Alberto tinha talento para o piano; tendo começado aulas, na academia de Luísa Maniguetti, sendo que as abandonou por pressão do pai, que achava que, se virasse pianista, tornar-se-ia maricas. A bem da verdade, Don Alfonso tinha, para os filhos, escolhido as profissões que deveriam exercer: Alberto seria, como cabeça de família, o seu sucessor à frente dos negócios; eu iria para o seminário, pois deveria haver um filho padre. Como o escolhido para tal profissão tinha falecido, logo após o nascimento, em 1942, eu, que o segui, recebi essa incumbência, além do mesmo nome: Ricardo. O facho vocacional do pai terminou arrefecendo com os filhos mais novos: Alfonso, Marisa e Gabriel foram deixados em paz. 

Marisa deu um belo testemunho da cumplicidade da infância que viveu com Alfonso. Ambos viravam pirralhos que aprontavam sem parar. Há pouco tempo, ao ensejo da doença que consumiu a vida do meu irmão, Marisa escreveu: “Poncho: conversei hoje com Ricardo, que acabava de falar contigo. Não quero te atrapalhar, pois sei que tens dificuldade para falar. Quero te desejar ausência de dor e de incômodos. Sei que estás bem sereno, atitude que, sem dúvida, te ajuda muito nesta difícil situação. Felizmente estás em casa, rodeado de toda a tua família. O único que gostaria era estar perto de ti, para podermos falar de tudo. De como, graças a ti, tive uma infância muito, muito feliz. Fizeste que a minha adolescência fosse alegre como tu, apesar de ter estado longe de ti. Como foste solidário comigo, ao me ajudar a pintar a casa para o meu casamento! Foste, igualmente, solidário, na época em que saíamos para gastar o dinheiro do meu enxoval, fazendo lanches deliciosos e assistindo filmes maravilhosos. Graças a ti, tive a grande oportunidade de desfrutar a vida já que, na tua companhia, saíamos a conquistar montanhas e a sermos perseguidos pelos bodes nas nossas longas caminhadas. Tive a oportunidade, também, de escrever teatro do absurdo, em peças nas quais fazíamos troça de todo mundo, de papi, de mami, de suas vidas e dissabores. A minha grande diversão foi a tua cumplicidade para com as minhas molecagens. Lembro de como inventávamos canções imitando as que o nosso pai cantava, mas com letras nossas, pois intercalávamos palavrões proibidos. Lembro de como brincávamos aos caubóis do oeste. Tu me salvaste de que me tratassem como uma menina, o que contribuiu para a minha felicidade, de então e de agora, já que sempre fui mais um moleque do que uma sinhazinha, graças à tua proximidade. Parte de toda essa história a tenho vivido com as minhas filhas, que salvei de serem tratadas como meninas, tendo conseguido elas, assim, pensar por si mesmas e serem elas próprias, pois, como lhes contei muitas vezes, contigo tive a possibilidade de ter um amigo próximo, que me aceitou incondicionalmente. Deixaste, em mim, maravilhosos momentos de alegria, de riso, de aceitação e de amor. Quero-te, infinitamente, meu querido irmão, companheiro de aventuras infantis e juvenis. Obrigada por seres como és”. 

A nossa mãe, Victoria, tentou morar com cada um de nós, após o falecimento da minha irmã Maria Victoria, em 1982, que morava com ela, depois da morte do meu pai, em 1977, em Medellín. Não deu certo nem com Alberto, nem com Gabriel, nem com Marisa, nem com Alfonso. Nem comigo. Ela, com mão diplomática, mas com aquela vontade de ferro, tentava organizar a vida do seu jeito. E as noras, ou a filha, logicamente, não gostavam. Assim, na cara e na coragem, a velhinha decidiu, quando morava em Cali com Marisa, nos anos 90, ir morar em Medellín, no Refúgio Vizcaya, uma casa para idosos administrada por freiras. Ela mesma negociou com estas, fez a inscrição e, num belo dia, de mala em mão, comunicou à Marisa a sua decisão, tomada sem ranger de dentes e sem nenhuma reclamação. “Minha filha, decidi que vou morar sozinha, em Medellín, no Lar Vizcaya. Já está tudo negociado. Podes me visitar, quando quiseres”. 

No restrito mercado antioqueño, de então, após sair do Instituto Tihamer Toth, Alfonso só conseguiu uma vaga numa companhia de seguros, na área de venda de túmulos e serviços fúnebres. Era muito divertido escutar meu irmão contando as suas aventuras de vendedor de produtos macabros. Ele tinha, com certeza, mais aptidões do que eu para as vendas: gostava de conversar com todo mundo, as pessoas achavam engraçada a sua forma de contar as coisas e não tinha problema para enfrentar ambientes desconhecidos. Tinha, enfim, o feeling do bom vendedor. Num fim de tarde, no bairro de Belém, próximo à Universidade de Medellín, chegou a uma casa oferecendo os seus préstimos mortuários e, ao contrário do que imaginava (pois as pessoas encerravam a conversa, quando ouviam falar em túmulos e enterros), o dono da casa, um pai de família com uma prole barulhenta e numerosa, o fez entrar e sentar-se à mesa, pois a família ia tomar o lanche. 

O patriarca fez o seguinte discurso: “Meus filhos, olhem para este rapaz que poderia estar, nesta hora, bebericando no bar da esquina ou deambulando, por aí, sem fazer nada. Tem quase a idade de vocês. E olhem para o que faz: trabalha num emprego difícil, pois túmulos ninguém quer comprar com esta vida tão cara. Mas, ele não esmorece. Parabéns, meu jovem vendedor. Você é um exemplo de disciplina e dedicação para esta turma de moleques que não querem saber de nada na vida!” Com esse discurso encorajador, Alfonso foi embora sem que o patriarca desse sinal de interesse nos túmulos ou nos serviços funerários... 

A pouca sorte de Alfonso nas vendas de túmulos, não o fez esmorecer. Dono de um temperamento alegre e divertido, o meu querido Poncho não dava a menor bola para as desgraças mercadológicas. Pelo contrário: fazia, desses pequenos fracassos, motivo de piada. Muito sociável e um comunicador nato, logo, o querido irmão encontrou o seu “nicho de mercado”. O meu amigo, René Uribe Ferrer, que tinha sido decano de Filosofia na Universidade Bolivariana e a quem conheci nessa posição, foi nomeado, pelo Governador do Departamento de Antioquia, como Secretário de Educação. Chamou-me para colaborar, com ele, como reitor de um grande ginásio departamental situado em Sabaneta, um município pertencente à área metropolitana de Medellín. Ora, eu já estava organizado como professor da Universidade Bolivariana e não queria mudar o meu trabalho por uma função de administração escolar, que, para mim, se me apresentava como um repto difícil, pois carecia de experiência na área. Conversei com Alfonso, ponderando que, pelo seu modo de ser, e pelo fato de já estar lecionando, com sucesso, no prestigioso colégio Mary Mount, para meninas, talvez se desse bem na área administrativa de um estabelecimento de ensino oficial de grande porte. Afinal, ele sabia muito bem lidar com as pessoas. Alfonso aceitou o convite e foi nomeado, então, reitor do Ginásio Departamental de Sabaneta. O seu trabalho à frente desse estabelecimento foi um sucesso completo, segundo me manifestou, algum tempo depois, o próprio Secretário de Educação departamental. 

Alfonso enveredou, depois, pelos estudos do desenvolvimento organizacional, tendo feito, com brilho acadêmico, a maestria na Universidade de Siracusa, em Champagne, Urbana, Estados Unidos. Pouco antes de viajar, tinha recebido convite da Universidade EAFIT, para lecionar Humanidades no Curso de Administração de Empresas, justamente na mesma área e na instituição em que eu, em 68, tinha iniciado a minha vida docente. Lecionei essa matéria em EAFIT até o final de 1970, justamente à época em que Alfonso se vinculou a essa Universidade. 

Para o meu querido irmão, segundo ele me dizia, em conversas sobre os rumos da docência da Filosofia numa Faculdade de Administração, somente faria sentido falar em Humanidades, se se partisse para uma humanização das relações interpessoais no terreno da gestão, fazendo com que os conceitos filosóficos fossem sendo compreendidos no plano concreto da vida e da tomada de decisões. Alfonso achava que o cultivo das Artes e da Filosofia deveriam ir de mãos dadas com a Ciência da Administração de Empresas, antecipando um conceito novo de gestão integral, que terminou sendo implantado nessa Universidade, quando da criação, em décadas posteriores, da Orquestra Sinfônica de EAFIT, não como um corpo estranho ao ensino da Administração, mas como uma privilegiada janela para apreender, vivencialmente, as relações entre valores artísticos e valorização da inteligência emocional, nas relações empresariais. Alfonso estava muito adiantado, para sua época, na compreensão do papel das Humanidades e da Filosofia na formação empresarial! 

Senti, profundamente, o falecimento do meu querido Alfonso (Poncho), depois que um fulminante câncer terminal o acometeu, ao longo do segundo semestre de 2019. Encarou as longas temporadas de hospital e os seus últimos dias com espírito cristão e grande coragem, nunca perdendo o seu bom humor e aquela “politesse du coeur” que sempre o caracterizou. Resta-me a lembrança do irmão jovial, sempre otimista e disposto a tirar da vida o que houvesse de bom, sem se deter nas minúcias das dificuldades do dia a dia. Poucos dias antes de falecer, na última conversa que tive com ele pelo Whatzapp na noite de Natal, disse-me, com a voz enfraquecida pela doença, mas com a tranquilidade de sempre: “Hermano, parece que de esta aventura no salgo vivo. El cáncer se extendió a todo el organismo. Bueno, hermano, que se haga la voluntad de Dios. En sus manos estamos. Estoy tranquilo”. Lembro do meu pai, me recomendando imitar o “belo temperamento” de Alfonso, a fim de superar as más lembranças dos meus anos de seminário. A sua lição de vida e de coragem ficará, para sempre, presente na minha alma. 

Alfonso tinha uma especial capacidade de gestão acadêmica, no nível superior, tendo deixado prova disso na magnífica obra de docência e consultoria na área empresarial, por ele desempenhada, durante mais de trinta anos, na Universidade EAFIT, de Medellín, uma das mais conceituadas da Colômbia e da América Latina. Dá testemunho dessa sua realização, a nota de pesar com motivo do seu falecimento, emitida pelas autoridades diretivas e a comunidade acadêmica da mencionada Universidade, nos seguintes termos: “Alfonso Vélez Rodríguez, un maestro, consejero, estratega, negociador y un ser humano con cualidades excepcionales, quien con un espíritu siempre alegre y positivo, realizó importantes contribuciones para la transformación de la Institución y sus áreas misionales de docencia, investigación y proyección social”. A nota foi assinada pelos integrantes do Conselho Superior da Universidade EFIT, juntamente com o Reitor, os diretores, os professores, os funcionários administrativos e os estudantes, que expressaram o seu pesar pelo falecimento de quem foi Diretor da Escola de Administração, professor e assessor de inovação. Assisti, emocionado, à bela apresentação de slides, com que a Universidade homenageou o meu querido irmão e a sua família, no dia 15 de janeiro de 2020. Está reconhecida, ali, a sua bela inspiração humanística, com que soube renovar o ensino da Administração e a prática do Empreendedorismo na Universidade EAFIT. 

Ainda lembro, emocionado, as palavras da sua esposa Eugenia, em post encaminhado a mim (em 4 de janeiro), pouco depois do falecimento de Alfonso: “Su vacío es enorme. Qué difícil es este paso. Pareciera que nos sale al encuentro, en cada detalle, y en cada hijo encuentro un pedacito de él. También hay tantas cosas lindas que nos dejó y nos enseñó, que quisiera gritarlas al mundo entero. Él siempre te tuvo presente y te siguió los pasos. No era muy expresivo para comunicártelo, pero me lo dijo varias veces”. Eu, também, sempre o tive muito presente, e admirava, com sadia inveja, a sua capacidade de chegar às pessoas, com essa sua simplicidade inigualável e a simpatia natural, que abria portas e corações. Enfim, acho que eu e o meu querido Alfonso ficamos quites em matéria de valorização pessoal e carinho fraterno, embora, pela educação tradicional que recebemos, pouco nos comunicássemos a mútua admiração e o amor recíproco. 

Boa sorte tivemos, Alfonso e eu, nos empreendimentos boêmios. Como ele tocava violão, criamos uma dupla caipira, imitando os conhecidos cantantes “Los Tolimenses”, Emetério e Felipe. Eu encarnava o primeiro, Alfonso o segundo. Imitávamos a fala desajeitada dos nossos personagens (que tinham imensa audiência nos programas de rádio e TV) e contávamos causos entremeados por toadas sertanejas, que cantávamos em dupla, eu fazendo a primeira voz, Alfonso a segunda. O sucesso foi grande. Éramos convidados para festas de aniversário e até casamentos. Eu escrevi, com paciência beneditina, um caderninho com as estórias de “Los Tolimenses”, que, evidentemente, foram sendo acrescidas. Até os nossos ouvintes nos passavam piadas novas, a fim de que enriquecêssemos o acervo. 

A empresa humorística não tinha empresário. Aí, nesse detalhe, esteve a nossa falha. Era necessário alguém que cuidasse, financeira e administrativamente, do empreendimento. Mesmo sem ganhar dinheiro, só por diversão, sobrevivemos dois anos, até a data em que fui expulso do corpo docente da Universidade Bolivariana, em decorrência da minha militância sindical e política. Desempregado, tive de buscar trabalho em Bogotá. 

A nossa vida de adolescentes tardios foi, certamente, ajudada, em muito, pelo nosso primo Joaquín, que tinha mais experiência de mundo. Embora tivesse passado um ano interno no Instituto Tihamer Toth, logo conseguiu se ver livre do seminário. Um dos motivos da sua libertação desse ambiente clerical foi, imaginem os leitores, o seu cachorro, “Tony”, que não desgrudava dele. Era um cãozinho vira-lata, daqueles de tempo integral e dedicação exclusiva. Quando Joaquín foi matriculado, pirralho ainda, o cãozinho o acompanhou, no dia em que os meus tios, Juan Félix e Solita, levaram-no ao seminário. “Tony” acompanhou Joaquín e o deixou no internato, tendo regressado à casa dos meus tios, junto com eles. Mas, coisa extraordinária, o bichinho apareceu, de noite, uivando no pátio interior do seminário. Tinha percorrido mais de 10 quilômetros entre a casa dos meus tios e o bairro Prado Veraniego, onde ficava o internato. Os porteiros fizeram algazarra perseguindo o cãozinho invasor. Imaginem onde foi se refugiar “Tony”? Justo embaixo da cama do meu primo, que ficava na ala dos alunos menores, um salão imenso cheio de beliches, que albergava mais de 60 crianças. “Tony” montou guarda embaixo do beliche de Joaquín. E virava uma fera, quando tentavam tirá-lo daí. 

“Tony”, logicamente, acompanhava o meu primo em todas as atividades, desde o banheiro, passando pela capela para a missa matinal e, logo, no refeitório para o café da manhã. Depois, ia à sala de aula, para divertimento dos pirralhos, pois havia professores dos que o cachorrinho não gostava e eram presenteados com rosnados aterradores. As cozinheiras logo caíram de amores pelo cachorrinho e lhe garantiam, com regularidade, pratinhos com as sobras do refeitório. Depois de uma semana, o reitor do seminário chamou os pais de Joaquín, explicou que o “Tony” estava transformando a rigorosa disciplina do seminário numa zorra e que era necessário que a família tomasse alguma providência. O tio Juan Félix, oficial da polícia, imaginou uma solução conciliatória e eficaz. “Tony” seria albergado na Escola de Sargentos da Polícia que ficava perto do lugar onde estava sediado o seminário, numa chácara de nome “La Pequeña Victoria”, na estrada que conduzia à cidadezinha de Suba. Os padres prometeram que Joaquín poderia ir visitar o cãozinho a cada quinze dias, e assim, “Tony” conseguiu, mesmo que a intervalos quinzenais, a “pequeña victoria” de ficar por perto do seu dono.... Passado o primeiro ano de internato, o reitor do seminário explicou aos meus tios que Joaquín, talvez, não tivesse um perfil adequado para ficar no internato e aconselhou que o matriculassem em outro colégio. “Tony”, sem dúvida, pesou no conselho dos padres... Como teria sido bom, se eu e os meus irmãos Alfonso e Gabriel tivéssemos tido um “Tony” por perto! 

Mas, voltemos às aventuras acadêmico-boêmias de Medellín. Joaquín, após as aulas na Escola de Aviação de SAM, passava as tardes conosco. Ajudava-nos a corrigir provas (ô irresponsabilidade!). Averiguava se a aluna fulana era bonita ou feia. Conforme a nossa avaliação estética, ele dava a nota! Felizmente, as alunas feiosas eram poucas nessa Medellín da eterna primavera. O certo é que não houve reclamação da parte delas. Joaquín nos acompanhava nas festas da Faculdade à qual, já no ano 70, tinha-se incorporado o meu irmão Alfonso, como professor auxiliar de Literatura e Filosofia da Universidade Bolivariana. Numa ocasião, fomos convidados para um almoço das alunas da Faculdade de Serviço Social, numa chácara. A condição era levar um frango assado. Esquecemos do encargo, tendo providenciado unicamente as bebidas. Mas Joaquim deu a solução: ele seria o frango. Magrelo e muito ágil, ele conseguia se encolher como um frango de padaria e piava razoavelmente. O colocamos no banco traseiro do nosso velho Dodge 56 e fomos para o sítio do almoço. Com pompa e circunstância desembarcamos as bebidas e o Joaquim, encolhido como um frango, piando. As alunas morreram de rir, aceitaram a nossa contribuição e passamos uma tarde muito divertida, com as piadas do nosso primo e as gargalhadas das alunas. O meu pai, que sabia das nossas tramoias, passava-nos pitos. “Não levem o seu primo às festas da Faculdade, que ele já é piloto e termina caindo na bebedeira, tendo de pilotar no dia seguinte! ” 

Joaquín, também, nos acompanhava às festinhas que as nossas amigas de bairro organizavam, nos finais de semana. Eram comuns, na Medellín da época, as tardes dançantes, organizadas pelas famílias para divertimento dos jovens e adolescentes. Eu tinha uma amiguinha, Beatriz, que me convidava. Comparecia aos bailecos em companhia de Alfonso, Joaquín e do meu irmão caçula, Gabriel. As meninas adoravam a companhia do meu primo e do Alfonso, donos de um temperamento divertido. À noite, contando as aventuras dançantes à minha mãe, ríamos à vontade, tomando cafezinho, fumando e lanchando. 

Em 69, fui par de uma prima distante, Olga Cecília, na sua festa de 18 anos, celebrada, em Ibagué, a “capital musical da Colômbia”, cidade mais importante do Departamento de Tolima e que tinha, na época, perto de 300 mil habitantes. A “festa de 18” era, na Colômbia da época, a data de apresentação da aniversariante em sociedade e a comemoração dava ensejo a um baile de gala. Aluguei black tie e tomei o avião para Ibagué, onde fui recebido pelos pais de Olga Cecília, que me alojaram na sua casa. Dançarino medíocre, consegui sobreviver à noite de valsas e ritmos caribenhos. 

Eu gostava muito de Olga Cecília, que tinha conhecido em festinha familiar, na casa da prima Eugênia, casada com o meu irmão Alfonso. Olga Cecília fazia o curso de Pedagogia na Universidade Bolivariana e ali, frequentemente, nos encontrávamos. Morava perto da Universidade e ela me convidava à sua casa para reuniões de amigos. Era uma menina doce, bonita, muito familiar. Gostava dela. Anos depois, em 75, já radicado em Medellín, encontrei-a na Escola República do Brasil, onde a minha primeira esposa dava aulas de “cultura brasileira”, com apoio do Consulado.