O chão da Educação vira terra fofa sem as Humanidades, que nos ensinam a sermos homens de verdade. Não na acepção vulgar e machista do termo, mas no sentido existencial. Aprender a ser Homem não se consegue com cursos que ensinam a ganhar dinheiro, nem com altas especialidades científicas. O aprendizado humanístico se consegue mergulhando na alma humana, lendo os pensadores, filósofos, sociólogos, antropólogos e autores de obras literárias, que se debruçaram sobre o que é a essência da Humanidade, na luta pela sobrevivência e pela dignidade. Apreendemos o cerne do Humano convivendo com os artistas e apreciando as suas obras, aqueles clarões de beleza que nos extasiam. Acompanhando a dura caminhada dos que se dedicam à ciência, somente porque acreditam na verdade e na possibilidade de identificá-la e transmiti-la. Estudando os passos dos estadistas na criação dos Impérios, voando por cima das intrigas palacianas e valorizando a quixotesca empreitada dos que buscam, com afinco, justiça e segurança para os seus semelhantes.
Sir Rabindranath Tagore (1861-1941), Prêmio Nobel de Literatura, de origem hindu, no seu livro de 1917 intitulado: Nacionalismo, escrevia: “A história chegou a um ponto no qual o homem moral, o homem íntegro, está cedendo cada vez mais espaço, quase sem perceber, (...) ao homem comercial, ao homem limitado a um único fim. Esse processo, reforçado pelas maravilhas do avanço científico, está atingindo proporções gigantescas, com um poder imenso, que causa o desequilíbrio moral do homem e obscurece o seu lado mais humano sob a sombra de uma organização sem alma”.
O filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952), por sua vez, na obra intitulada: Democracia e educação (1915), frisava: “O progresso vem a equivaler à classe de coisas que uma máquina bem planejada pode fazer melhor do que um ser humano, e o efeito principal da educação – a construção de uma vida plena de sentido – fica à margem”.
A professora Martha Nussbaum (nascida em 1947), da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, no prefácio à obra Sem fins de Lucro: Por qué a Democracia precisa das Humanidades (2010), escreve: “As artes e as Humanidades desempenham uma função central na história da democracia, mas, contudo, muitos pais na atualidade sentem vergonha de que os seus filhos estudem arte ou literatura. Embora a Filosofia e a Literatura tenham mudado o mundo, é muito mais provável que um pai ou uma mãe se preocupem pelo fato de os seus filhos não souberem nada de negócios, do que porque recebem uma formação insuficiente em matéria de humanidades. Inclusive no Laboratory School da Universidade de Chicago, onde teve origem a experiência inovadora do filósofo John Dewey para a reforma educacional, há inúmeros pais insatisfeitos porque temem que a escolaridade dos seus filhos não os prepare bem para a prosperidade econômica”.
Em 1986, três professores universitários: Antônio Paim (1927-2021), Leonardo Prota (1930-2016) e eu, em Londrina, fundamos o Instituto de Humanidades, com a finalidade de abrir uma opção ampla de estudo dos valores que animaram, desde o seu nascimento, a Cultura Ocidental. Inspirados pelo Curso de Humanidades oferecido, a partir dos anos 70 do século passado, pela Open University de Londres, escrevemos os seis Manuais correspondentes aos principais momentos da Civilização Ocidental. A respeito, frisávamos no livro intitulado Bases e Características da Cultura Ocidental: “Escolhemos seis temas através dos quais seria possível adquirir um mínimo de familiaridade com a evolução cultural do Ocidente, assim denominados: I – Nascedouro e fundamentos histórico-culturais; II – Nova periodização da Idade Média e traços distintivos desses ciclos; III – O Renascimento e as grandes criações da Época Moderna; IV – A revolução industrial e as novas instituições políticas do século XVIII; V – Emergência dos valores urbanos na Época Victoriana e VI – Características diferenciadoras da Cultura Ocidental” [Paim, Prota, Vélez, Apresentação, Bases e Características da Cultura Ocidental, Rio de Janeiro: Editora Expressão e Cultura, 1999, pp. 9-10].
A nossa ideia era, nessa época, conseguirmos traduzir, não apenas em leituras de textos, mas também apresentarmos no cinema, os valores fundamentais da Cultura Ocidental. A proposta de um ensino audiovisual encaixava perfeitamente dentro dessas ambições intelectuais. Pretendíamos imitar limitadamente o exemplo civilizador do Imperador Carlos Magno (748-814) que, disléxico, não conseguia seguir um texto escrito, mas tinha uma extraordinária capacidade de se comunicar em imagens. Foi assim como o fundador do Sacro Império Romano-Germânico alfabetizou e pregou o cristianismo aos bárbaros através dos vitrais, aquela magnífica invenção sua que ornou, pela Europa afora e depois pelo mundo, catedrais, castelos e mosteiros.
Antes da explosão do ensino digital que acompanhou a mudança de milênio, escrevíamos em 1999: “O cinema é um poderoso instrumento educacional. Com o aparecimento do vídeo, as possibilidades de sua utilização, com vistas àquele fim, multiplicaram-se incessantemente. Levando em conta o abandono da cultura geral pelo nosso sistema de ensino, a utilização desse instrumento torna-se ainda mais imperativa, embora seja relativamente escassa a oferta dos denominados ‘vídeos culturais’. Na Europa e nos Estados Unidos existem hoje cursos em vídeo para variadas gamas de assuntos e, especialmente, sobre muitos dos temas relacionados às humanidades. Em que pese a lacuna e apostando na melhoria da oferta, concebemos esta obra com o propósito de permitir que os interessados em conhecer os aspectos essenciais da cultura ocidental possam fazê-lo, sem ter que abandonar outras atividades” [Paim, Prota, Vélez, Bases e Características da Cultura Ocidental, p. 9].
Termino esta exposição sobre a importância decisiva da Formação Humanística com o breve texto intitulado: “O Espírito do Curso do Instituto de Humanidades”, de autoria de Paim, Prota e minha, que destaca os aspectos fundamentais do Curso oferecido pelo Instituto, hoje presidido, em São Paulo, pelo Dr. Arsênio Eduardo Corrêa.
O Espírito do Curso do Instituto de Humanidades
“O conhecimento da filosofia em toda a sua amplitude está hoje reservado a especialistas, o que não chega a se constituir numa especificidade filosófica, mas de todo o saber. Deste modo, faz parte da preservação da cultura humanista que os países disponham de alguns centros devotados ao estudo da filosofia, e não apenas da matemática ou da física, nem o estudo destas deve circunscrever-se à aplicação. No Brasil, não se procedeu a uma seleção de quais os centros de estudos filosóficos de que deveríamos dispor. De modo que se passou a fazer quase tudo em grande número de universidades. Em cerca de três décadas desde a sua fundação, os cursos de pós-graduação em filosofia produziram 1.200 teses, na maioria dos casos de qualidade duvidosa. Generalizou-se a convicção de que fazer filosofia é falar empolado. Mais grave é a suposição de que deve reservar-se ao reduzido círculo que lhe possa dedicar longos anos de aprendizado. O correto seria, além de alguns poucos centros devotados a questões específicas - por exemplo, o Brasil pode ter um centro de estudos da filosofia escolástica pela existência de grandes bibliotecas em instituições religiosas e ainda de uma geração de prelados que sabe latim, capaz de projetar-se no exterior – que todas as pessoas que frequentassem a universidade tivessem acesso à cultura geral, compreendendo a filosofia numa posição destacada, desde que contribuiria para proporcionar unidade a esse ensinamento. O nosso curso obedece a esse espírito. Queremos proporcionar os meios de integrar conhecimentos dispersos que todos têm acerca do processo de constituição e evolução da cultura ocidental. Damos preferência à compreensão dos valores que a explicam. Esperamos que, graças a esse procedimento, consigamos demonstrar não apenas a importância, como a acessibilidade da filosofia”. [Paim, Prota, Vélez, Curso de Humanidades – Programa. Londrina: Edições Humanidades, 2004, pp. 134-135].