Voltar

170 ANOS DA LIVRARIA FRANCISCO ALVES

Recibí em días passados um belo presente de Carlos Leal, fundador e editor da Barléu Edições e editor da Livraria Francisco Alves: um livro-convite para comemorar os 170 anos da famosa livraria carioca. Título da obra: 170 anos - Francisco Alves (Organizador: Carlos Leal). Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 2024, 193 páginas).  Fiquei muito contente, pois o que vejo é que, nestes tempos bicudos, muitas livrarias estão fechando as portas pelo Brasil afora. Não é apenas porque a cultura digital compete ferozmente com os apreciadores e colecionadores de livros. É também por causa da nossa precária economia, asfixiada pelas estúpidas políticas socialistas de Lula & Companhia.

Carlos Leal convidou, para participarem da edição do livro-convite, representativas figuras da cultura nacional, alguns ainda vivos, outros já na dimensão platônica das idéias eternas. Começo com um breve currículo do próprio Carlos Leal, editor e curador da Livraria Francisco Alves Editora, eleito vice-presidente do PEN Clube. O seu pai, armador, comprou a Livraria Francisco Alves em 1974. Em 2002, Carlos sucedeu o seu pai à frente da Livraria Francisco Alves. Já tinha fundado a Editora Barléu, dedicada à publicação de livros de arte.

Assim inicia Carlos Leal o seu belo texto intitulado “Memórias e gratidão”: “Eram os anos 70. O Rio de Janeiro fervilhava com novos movimentos musicais, ideias, peças de teatro, filmes e livros. Jovens cheios de vontade de mudar o mundo devoravam livros, buscando entender o que acontecia à sua volta para ampliar sua visão de mundo. O mercado de livros no Brasil também se expandiu nesse período e passou a editar o que de melhor era lançado no exterior, além de autores nacionais muito cultuados graças a editores como Garnier, Francisco Alves e José Olympio. A Francisco Alves era um desses pequenos centros que irradiavam cultura na nossa cidade, consequentemente no Brasil. O Rio de Janeiro era um paraíso para consumidores de arte e literatura, Ipanema era só felicidade, embora os anos de chumbo se abatessem sobre o Brasil”.

“Eu era - continua Carlos Leal - um desses jovens com sede de aprender. Aos dezessete anos, vivia com intensidade esse Rio de Janeiro e me emocionava imensamente com a leitura dos grandes poetas e clássicos da literatura. Quando entrei pela primeira vez na Francisco Alves, em 1974, descobri um mundo novo, diverso da realidade da minha família. Eu me encantei. O ambiente da editora era descontraído e alegre, especialmente se comparado à empresa de navegação fundada por meu pai, José Carlos Leal, e seu sócio, Ariosto Amado na qual a hierarquia era bem definida e rígida. Para se ter um exemplo, ninguém na empresa tratava meu pai ou o seu sócio de ‘você’. Eu mesmo tratava Ariosto por tio ou doutor. Nem mesmo os diretores relaxavam o tom. Leo Magarinos era dos poucos que o tratavam de Leal, mas só quando estavam sozinhos ou apenas na minha presença” [ob. cit., pp. 13-14].

“Eu havia trabalhado na editora de 1974 a 1981 - continua Carlos - quando fui atuar em navegação num longo périplo fora do Rio: Santos e São Paulo, Copenhagen, Londres, Houston e Nova Iorque. Depois, em 1992, passei a fazer parte do conselho de administração da Netumar e, com Ariosto Amado Filho, conseguimos levar a empresa segura a porto” [ob. cit., p. 18].

Carlos Leal destaca de que forma a Livraria Francisco Alves colaborou com a modernização do livro brasileiro, seguindo a trilha aberta pela Companhia das Letras em 1986, “que levou o livro no Brasil a um novo patamar de qualidade das suas edições, que além de bem cuidadas e interessantes, tornaram o livro um objeto atraente. O corpo de letras deixou de ser dez e passou a ser doze; espaço entre linhas de onze foi a catorze. Essas mudanças deixaram a leitura mais agradável. As capas ganharam outra vida, passaram a ter a linguagem do bom design gráfico, sofisticada e mais atraente, embora os recursos gráficos fossem parcos nos anos 1980” [ob. cit., p. 20]. Pois, sob o comando acertado de Carlos Leal, a Livraria e Editora Francisco Alves também mudou. Pesou muito na modernização da editora a amizade que Carlos Leal teve com um editor de peso, Pedro Paulo de Sena Madureira, na editora Nova Fronteira fundada pelo ex-governador do Rio, Carlos Lacerda.

A história da base física da Livraria Francisco Alves é longa. O essencial é que o terreno da livraria, na rua do Ouvidor, no centro do Rio, “pertencia à Academia Brasileira de Letras desde que, em 1917, Francisco Alves morreu e deixou todos os seus bens à entidade. O Dr. Austregésilo (presidente da Academia) era um negociador implacável. Acompanhado do nosso advogado – relata Carlos Leal - , participei de muitas reuniões na sala do presidente, localizada no prédio principal da ABL. O famoso Solar da Baronesa, obra de Austregésilo de Athayde (1898-1993), sempre era invocado nessas conversas. A (Empresa de Navegação) Netumar construiu o prédio e o explorou por vinte e cinco anos, quando os doze andares reverteram para a Academia Brasileira de Letras” [p. 26].

Elenco, a seguir, a lista das personalidades que integraram o livro-convite, bem como um breve resumo dos seus textos. A obra que comento, 170 anos Francisco Alves tem, como primeiro apresentador Merval Pereira, atual Presidente da Academia Brasileira de Letras. O seu depoimento introdutório, intitulado: "Um homem de visão" [pp. 9-11]centra-se em dois pontos: a pessoa de Francisco Alves e a relação da Academia Brasileira de Letras com a sua Livraria. No primeiro ponto, destaca a figura de Francisco Alves; frisa Merval Pereira: “Como todo mito, o livreiro Francisco Alves tem diversas versões de si mesmo retratadas por amigos e conhecidos. Ora, quando menino, dizem que era inteligente e aplicado nos estudos, tenaz e disciplinado, de índole criativa. Adulto, algumas vezes, é descrito como um sujeito rude, de palavreado chulo. Menos com as mulheres, a quem respeitava sempre” [ob. cit., p. 9].

O sonho de Francisco Alves foi, sempre, ser livreiro “e trabalhou arduamente como caixeiro e carregador de armazém – frisa Merval – até que, dez anos depois de aqui ter chegado, vindo da pequena Cabeceira de Bastos, em Portugal, conseguiu juntar dinheiro suficiente para inaugurar sua primeira loja de livros usados. A partir daí, tornou-se o maior livreiro do seu tempo. Atendia a todos os fregueses com a polidez que negava aos empregados, mas era generoso com eles também. Ninguém lhe recusa a qualidade de editor competente e atualizado com as tendências literárias. Como uma pessoa poderia ter amigos como Olavo Bilac, Afrânio Peixoto, Rodrigo Otávio, Medeiros e Albuquerque, Gustavo Barroso, se não fosse culto e respeitado?” [ob. cit., p. 10].

Eis como Merval Pereira sintetiza a relação de Francisco Alves com a Academia Brasileira de Letras: “Muitos desses amigos faziam parte da Academia (...), instituição cultural que, já àquela época, necessitava de fundos para desenvolver seu trabalho em favor da língua e da cultura brasileira. Pois Francisco Alves, para surpresa de quase todos, deixou sua herança integralmente para a ABL, exigindo em troca apenas uma pensão para a senhora Maria Dolores Braun, com quem viveu de 1890 até sua morte, e que se organizasse, de cinco em cinco anos, concursos sobre a divulgação do ensino primário no Brasil e sobre a língua portuguesa. O próximo será em 2028” [ob. cit., p. 10].

O Presidente da Academia Brasileira de Letras sintetiza, com as seguintes palavras, a forte presença de Francisco Alves no universo cultural carioca da sua época: “Foi editor dos maiores escritores brasileiros, mas ficou marcado, segundo os especialistas, por dois deles: O Ateneu, de Raul Pompéia, e Os Sertões, de Euclides da Cunha. Francisco Alves não foi o primeiro editor dessas obras -primas, mas lhes reconheceu o valor e ajudou a torná-las um sucesso nacional. Além de editor importante e bom negociante, Francisco Alves era um agregador e sua livraria tornou-se o lugar preferido dos escritores e artistas para encontros diários no centro cultural do Rio de Janeiro. (...) A Academia Brasileira de Letras tem seu nome umbilicalmente ligado ao do livreiro Francisco Alves, e fica feliz de se unir a essa homenagem aos 170 anos da sua editora” [ob. cit., p. 11].

Ivan Junqueira (1934-2014) foi poeta, jornalista, tradutor e crítico literário. Junqueira traduziu poetas modernos como o grande Thomas Steams Eliot (1888-1965). Ocupou a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras. Autor de várias obras, dentre as quais: Os Mortos (1964); Três Meditações na Corda Lírica  (1971), A Rainha Arcaica (1980), Cinco Movimentos (1982), O Grifo (1987), A Sagração dos Ossos (1994), Poesia Reunida (2005), O Tempo Além do Tempo (2007), O Outro Lado (2008), Essa Música (2014).

Ivan Junqueira sintetiza no seu texto intitulado: “Francisco Alves e a Academia”, nas seguintes palavras, a vida e a obra do autor homenageado: “Os anos se passaram, Francisco Alves realizara os seus sonhos. Era dono de uma das maiores livrarias do Brasil. Estava rico e dispunha de todos os meios para satisfazer os seus desejos. Viajava com frequência à Europa, mas passava a maior parte do tempo na livraria, onde se demorava das 9h da manhã às 5h da tarde, atendendo a todos os fregueses com polidez e fundo conhecimento de tudo o que lhes oferecia, pois era homem de grande cultura e de sólido domínio no que toca à informação bibliográfica, sobretudo na área de línguas (falava fluentemente o inglês, o francês e o italiano), da geografia e da história. Foi também editor de faro aguçado, sempre atento ao aparecimento de novos autores. Ele próprio, inclusive, sob o pseudônimo de Guilherme do Prado, foi autor de livros didáticos, sua grande especialidade como livreiro” [ p. 35].

Alexei Bueno (1963-), poeta, editor, ensaista, membro do PEN Clube, foi Diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro. É membro do Conselho Estadual de Tombamento. Autor de uma História da poesia brasileira (2007).

No texto da coletânea em torno ao sesquicentenário da Livraria Francisco Alves, Alexei transcreve alguns trechos do seu belo ensaio intitulado: “Transformação e permanência”, que leva como subtítulo: “Alguns flagrantes da história do livro no Brasil”. Cito, de entrada, as palavras com que Olavo Bilac (1865-1918) respondia ao pedido de conhecida editora, que pedira um texto didático destinado às crianças, bem dentro do espírito que Francisco Alves tinha imaginado para a sua tarefa como editor: “Quando a casa Alves & Cia. me incumbiu de preparar este livro para uso das aulas de instrução primária, não deixei de pensar, com receios, nas dificuldades grandes do trabalho. Era preciso fazer qualquer coisa simples, acessível à inteligência das crianças; e quem vive de escrever, vencendo dificuldades de forma, fica viciado pelo hábito de fazer estilo. Como perder o escritor a feição que aí adquiriu e as suas complicadas construções de frase, e o seu arsenal de vocábulos peregrinos, para se colocar ao alcance da inteligência infantil?”

“Outro perigo: a possibilidade de cair no extremo oposto – fazendo um livro ingênuo demais, ou, o que seria pior, um livro, como tantos há por aí, falso, cheio de histórias maravilhosas e tolas que desenvolvem a credulidade das crianças, fazendo-as ter medo de coisas que não existem. Era preciso achar assuntos simples, humanos, naturais que, fugindo da banalidade, não fossem também fatigar o cérebro do pequenino leitor, exigindo dele uma reflexão demorada e profunda. Mas a dificuldade maior era realmente a da forma. Em certos livros de leitura, que todos conhecemos, os autores, querendo evitar o apuro do estilo, fazem períodos sem sintaxe e versos sem metrificação. Uma poesia infantil conheço eu longa, que não tem um só verso certo”. O autor conclui: "Apesar de suas bem ponderadas dúvidas, Bilac, com a sua invariável correção, se saiu muito bem da empreitada, sendo Poesias Infantis, nascido do faro comercial do velho Alves, um dos melhores livros brasileiros de versos para crianças de qualquer época” [pgs. 63-64].

Um segundo aspecto Alexei destaca, acerca do trabalho editorial de Francisco Alves, desta vez citando as palavras de Medeiros e Albuquerque (1867-1934) acerca do faro comercial do velho editor: “Ele tinha uma regra na edição de obras literárias. Editava sem muita dificuldade o primeiro trabalho de um novo que lhe parecesse de talento. Feito isso, esperava o julgamento do público. Se este esgotava primeiro, fazia outras edições de trabalhos do mesmo autor. Se o público, porém, repudiava o escritor, ele não se julgava obrigado a ser Mecenas. Era um modo de proceder de negociante inteligente; dava, porém, o que é difícil para um autor novo: a possibilidade de aparecer” [p. 67].

Em relação ao testamento deixado por Francisco Alves, bem como aos seus últimos dias, frisa Alexei Bueno: “Em 31 de maio de 1904, já senhor de todo esse vasto império comercial, Francisco Alves, com 56 anos incompletos, registra no Rio de Janeiro o seu famoso testamento, no qual reservava a D. Maria Dolores Braun, com quem vivia maritalmente há muitos anos, uma pensão mensal de quinhentos mil-réis, e deixava toda a sua fortuna para a Academia Brasileira de Letras, instituição na época com apenas sete anos de existência, e com quase nulos recursos próprios. Caso fosse extinta da mesma, a fortuna iria para a Santa Casa da Misericórdia, índice claro de que na época a Academia nem sonhava em apresentar a solidez institucional que começou a ter com a morte de Francisco Alves. Estipulava, através desta, por outro lado, a entrega de dois prêmios anuais, um para monografias sobre como divulgar o ensino primário, outro para obras sobre a língua portuguesa. Após passar os anos da Primeira Guerra Mundial acompanhando entusiasticamente o conflito, na espera da vitória dos aliados, faleceu em 29 de junho de 1917, aos 68 anos, de pneumonia, sem ter assistido à tão almejada vitória. A abertura do seu testamento causou impacto no mundo das letras. Em necrológio do seu falecido editor, assim depunha Olavo Bilac: ‘Sabe que fui muito amigo do Alves? Muito amigo de muitos e muitos anos. Todos os meus livros, absolutamente todos, estão na Casa Alves. E o velho editor sempre me mostrou um grande afeto de que tive muitas provas (...)’ ” [ pp. 71-72].

Alexei Bueno encerra assim o seu depoimento, com grandes elogios a Francisco Alves: “A Academia Brasileira de Letras deve-lhe a firmeza da vida material; as letras nacionais são-lhe credoras do estímulo e do impulso que indiretamente lhes proporcionou. Francisco Alves era homem vidente e sagaz: o olhar penetrante possuía fagulhas arúspices. Adivinhava o caráter e a inteligência de outrem; possuía a fortuna das obras a editar; palpitava os talentos do escritor que dele se acercava. Homem singular, ríspido, íntegro, solitário, laborioso, modesto, inteligente, agudo e poupado. Raramente adoecia. Sóbrio nos alimentos, comedido nos gestos, rítmico nas obrigações, cedo estava na livraria, tarde dela se retirava. Motor automático. Máquina de gás pobre, mas de grande rendimento. Esquizotímico. Irascível, generoso. Talvez mau para si; bom para muitos; honesto como poucos” [ p. 75].

E assim conclui Alexei Bueno o seu belo depoimento: “Há no domicílio de sua alma que é esta Academia, fotografia, busto, inscrições que lhe lembram a memória; porém há sobretudo o éter permanente do seu idealismo, do amor por esta instituição, do respeito que tinha pelos homens de saber e de talento; há as vibrações de sua personalidade ímpar, entre todos nós, cheios de veneração, porque a sua bizarria moral impregnou esta morada da inteligência com a luz perene do bem fecundo” [ pp. 75-76].

Álvaro Ferreira de Almeida, nascido em 1892, faz de si uma apresentação bastante original no seu texto intitulado: “Capitão de vassoura” : “Tinha eu quinze anos de idade quando, no dia 7 de janeiro de 1907, munido de uma carta de recomendação assinada por Jacinto Alves, gerente da Livraria Garnier, dirigi-me à Livraria Francisco Alves, para entregá-la ao seu proprietário, Francisco Alves de Oliveira. A Livraria, já minha conhecida de nome, ocupava, como ainda ocupa, o prédio de três pavimentos da rua do Ouvidor, nº 134, atualmente 166. Na parte térrea, no fundo de ampla loja, fartamente iluminada pela luz solar vinda do alto, através de duas vastas claraboias, erguia-se uma velha escada de ferro, à guisa de caracol. Um tanto temeroso, encaracolei-me pela escada acima e, chegando ao segundo pavimento, já devidamente orientado, embiquei direto para a escrivaninha do afamado editor” [p. 83].

O adolescente candidato a funcionário, Ferreira de Almeida, descreve assim o centro da Livraria, onde tinha assento o seu dono, Francisco Alves. Reparem os amigos leitores como o narrador descreve a livraria como se fosse um enorme navio, sendo o dono, Francisco Alves, o capitão que pilotava a enorme embarcação, desde o seu ‘panóptico’: “A escrivaninha, em si, nada tinha de original; era idêntica a tantas outras. A sua estratégica colocação é que merece destaque especial. Ficava na parte da frente, à esquerda de quem entrasse, colada à balaustrada que circundava a área descoberta da loja, de modo que, sem se levantar, mas tão somente com o olhar, o astuto livreiro esquadrinhava todos os recantos da Casa. Ao observar um empregado em falta, repreendia-o sem piedade, substituindo o seu nome de batismo por Zebróide, vocábulo muito do seu agrado com que eu, como zebra nova, também fui condecorado. Aliás, de um modo geral, zebróide eram todos os funcionários da casa. Todos, não, minto. Havia um que, em razão do seu nome, Rubem Ribeiro de Rezende, merecia um tratamento diferente: chamava-o de Burro com três erres”.

O depoimento de Ferreira de Almeida continua assim: “Dir-se-ia, como já escrevi alhures, um velho lobo de mar, preso à roda do leme, emitindo vozes de comando para que a embarcação não desviasse o rumo. Pacientemente aguardei um momento de calmaria, acerquei-me de sua mesa de trabalho e entreguei-lhe a carta, que já me tremelicou na mão. Recebeu-a com indiferença, abriu-a vagarosamente, leu-a e, senhor do assunto, assentou os óculos, mirou-me dos pés à cabeça e da cabeça aos pés para sentenciar: - Mas o senhor é ainda muito pequeno: talvez não possa, ao menos, com um pacote. E eu, mais que depressa, objetei: - Posso, sim, senhor. Talvez a firmeza da minha resposta de me julgar capaz de superar qualquer obstáculo que se me apresentasse no intuito de impedir o meu desejo de trabalhar, inclinasse o meu inquiridor a ser mais benevolente, desde que eu respondesse, com acerto, a um breve questionário, indispensável à admissão de um seu empregado. Assim fui logo testado em leitura, redação e nas quatro operações. Terminada a prova de ‘capacidade’, olhou-me mais uma vez dos pés à cabeça, pensou um instante e concluiu: - ‘Bem... A casa abre às 7 horas. Amanhã procure chegar mais cedo dez minutos para assinar o ponto. Fale com o Sr. Saavedra, que é o empregado desse setor e diga-lhe que está autorizado por mim (...)’ ” [pp. 84-85]. Deliciosa narrativa que nos faz tomar carona no enorme navio que era a Livraria Francisco Alves...

Carlos Heitor Cony (1926-2018). Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000, colunista da Folha de São Paulo e comentarista da Rádio CBN de São Paulo. Uma obra bastante significativa de Cony foi O Ato e o Fato (1964), que constituiu uma crítica ao regime militar. Cony, perseguido pelos órgãos de repressão, terminou se asilando em Cuba, após ser preso várias vezes durante o regime militar. No Rio de Janeiro, trabalhou como editor de revistas da Bloc Editora. Tornou-se célebre a sua coluna de imprensa que escreveu na Folha de São Paulo entre 1993 e 2013.

No depoimento intitulado: “A rara solidariedade no mundo das letras” Cony traça um quadro de bela solidariedade humana que se passou no final do século XIX entre Olavo Bilac (1865-1934) e Henrique Maximiano Coelho Neto (1864-1934), na época da ditadura de Floriano Peixoto (1891-1894) que prenunciava, no final do século XIX , o ciclo autoritário que aconteceria nos anos sessenta. Sem mais delongas, citarei a bela narrativa com que nos delicia Carlos Heitor Cony, que inicia assim o seu relato: “Não é para fazer comparação, mas é bom recordar que nem sempre o homem, funcionando como o vilão da história, merece repúdio total. Pinço de nossa vida literária um episódio que quase ninguém conhece, envolvendo dois monstros sagrados da bela época de nossas letras” [p. 129]. São personagens desse episódio, segundo Carlos Heitor Cony: “Olavo Bilac, carioca, príncipe dos poetas, e Coelho Neto, maranhense, que encheu um tempo em nossa literatura até ser eleito alvo preferencial dos ataques daqueles que genericamente se intitulavam ‘modernistas’” [p. 129] .

Cito a seguir, inteira, a narrativa do evento relatado por Cony: “Bilac combatia a ditadura de Floriano Peixoto, foi preso e confinado, mesmo assim continuou a luta contra o ditador. Precisou fugir certa vez, estava de caixa baixa, empenhou as jóias da mãe. Quando as coisas melhoraram, voltou ao Rio e soube que as jóias iriam a leilão. Acabrunhado, procurou Coelho Neto, amigo do livreiro Francisco Alves, o mesmo que deixaria sua fortuna para a Academia Brasileira de Letras”.

“Foram os dois, poeta e romancista, ao livreiro Alves, na esperança de um adiantamento por conta dos direitos autorais de algum livro que ainda poderia ser escrito. Era uma segunda-feira. O leilão das jóias seria na sexta. Alves perguntou se eles tinham algum original pronto. Não tinham. Fugindo da política de Floriano, o poeta guardava alguns sonetos esparsos, não davam para formar um volume. Coelho Neto naquele momento nada tinha na gaveta”.

“Alves perguntou se os dois não podiam fazer contos destinados aos alunos dos ginásios, aquela massa de leitores que hoje chamamos de público infanto-juvenil. Adotados nos colégios, os textos precisariam contar episódios da história do Brasil, temas, cívicos, essas coisas. Sugeriu o título: Contos Pátrios. Preço da encomenda: quatro contos de réis. Pagaria metade na hora, metade contra a entrega dos originais, no final da semana”.

“Bilac e Neto se olharam. Teriam três dias para salvar as jóias do leilão. Toparam. Foram para casa, passaram os três dias escrevendo contos, um após outro. Varavam as noites na tarefa. Na sexta-feira, Alves recebeu os originais”.

“O maior prosador da época, e o maior poeta de todo um tempo nacional, assinariam em conjunto um livro escolar que venderia 105 mil exemplares, segundo informações de Félix Pacheco (1879-1935) e Humberto de Campos (1886-1934). Seria um dos maiores best-sellers da nossa indústria editorial, um fenômeno se levarmos em conta que a população brasileira era de 20% em relação à de hoje. Não conheço este livro, só de referência. É possível que tenha lido algum desses contos em antologias ou publicações esparsas”.

“Não devem ser obras-primas. Mas a atitude de Coelho Neto é uma obra-prima de solidariedade humana e profissional. Ele até que vivia bem, na casa que era um ponto de encontro dos intelectuais da época, ali em frente ao campo do Fluminense, que hoje tem seu nome” [pp. 129-131].

José Ephim Mindlin (1914-2010). Filho de pais ucranianos, empresário, advogado e bibliófilo, fundou a Metal Leve, uma das maiores empresas de autopeças. Crítico do regime militar. Secretário de Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo, reuniu a maior biblioteca privada de livros brasileiros do país (40 mil volumes), que foi doada à USP. Em relação à Livraria Francisco Alves, Mindlin escreve: “Meu relacionamento com a Francisco Alves vem de longe, pelo menos 82 anos. É menos do que os 150 anos que a Livraria festeja este ano, mas creio que é o suficiente para eu poder dizer que somos velhos amigos” [137].

Acerca do sentido que tinha a Livraria Francisco Alves na sua vida de bibliófilo, Mindlin dá o seguinte testemunho no seu breve texto intitulado: "Um grande amigo do livro" [pp. 137-139]: “Eu tinha acabado de ler, em 1927, a História do Brasil (de 1627) de frei Vicente do Salvador (1564-1635) , numa edição da Companhia Melhoramentos, que tinha ganhado de presente de aniversário, em setembro daquele ano. Li o livro com interesse, e com muita atenção à bibliografia, onde se listavam as principais obras para o estudo da História do Brasil. Tenho a certeza de que foi aí que se originou meu interesse por estudos brasileiros que, aliás, se manteve até hoje. Tanto assim que escrevi para vários livreiros do Rio, indagando se dispunham de determinadas obras constantes daquela bibliografia, praticamente todas já eram bastante raras, coisa que eu ignorava. Só obtive uma resposta, a da Livraria Francisco Alves, oferecendo-me um exemplar da edição brasileira da História do Brasil, do historiador britânico Robert Southney (1774-1843), publicada em 1862 por Baptiste Louis Garnier (1823-1893). Pediam-me 80 mil réis, preço que me assustou aos treze anos de idade, mas ganhei o livro de meus pais e conservo o exemplar com carinho, pois foi o primeiro livro (que na minha opinião me pareceu antigo...) da Brasiliana que comecei a formar! Justifica-se ou não meu entusiasmo pela Livraria Francisco Alves?”

Josué Montello (1917-2006) escreveu, na coletânea organizada em memória da Livraria Alves, o breve artigo intitulado: “Os sonhos do velho Alves” [pp. 143-150].

Antes de tratar do texto de Josué Montello, lembremos, no entanto, alguns dados da sua vida e obra. Trabalhou como diretor da Biblioteca Nacional, do Museu da República e do Serviço Nacional de Teatro. Escreveu para a Revista Manchete, o Jornal do Brasil, tendo servido no governo de Juscelino Kubitschek de 1959 a 1967, como Diretor do Museu Histórico Nacional. Alguns dos seus escritos de destaque são: Os tambores de São Luís (1965), Duas vezes perdida (1966), Perto da meia-noite (1985). Teve as suas obras traduzidas para o inglês, o francês, o espanhol, o alemão e o sueco. Algumas das suas novelas foram roteirizadas para o cinema, como Uma tarde, outra tarde (1978) e O monstro de Santa Teresa (1975). Ficou famosa a apreciação crítica elogiosa de Josué Montello feita pelo estudioso Wilson Martins (1921-2020): “Josué Montello é hoje o decano do romance brasileiro, comparado a outros gênios como Balzac (1799-1850) e Cervantes (1547-1616)”.

Destacarei um ponto da psiquê de Francisco Alves, no qual toca Josué Montello na sua abordagem do autor: o afeto para com os seus autores publicados. A respeito, escreve Montello: “Assim era o Alves. Ao que parece, deixou de transferir os seus rompantes do livreiro para as relações pessoais com os seus editados. A estes, tratou bem. Charles Firmin de Maillard (1774-1854) não o tomaria como exemplo da tese segundo a qual essas relações de editor e editado começam habitualmente por um aperto de mão e acabam quase sempre com a presença de um oficial de justiça entre os dois. O que as letras deram ao velho Alves, como livreiro, como editor e como autor, ele o restituiu às letras, ao transferir toda a sua fortuna a uma instituição de escritores. Rodrigo Octávio (1866-1944), em Minhas memórias dos outros, reconhece que o Alves, por sua benemerência, tudo merece da Academia. E esta, todos os anos, no aniversário da morte do livreiro, abre o seu salão nobre para festejar lhe a memória” [pp. 169-170].

“Amou ele alguém?” pergunta Montello. E responde: “Parece que sim. Tanto que fez a Academia pagar uma pensão mensal a uma certa senhora enquanto viveu. João Ribeiro, que para ele muito trabalhou, contou numa crônica, após a sua morte, a peça que Alves lhe pregou. Costumava aparecer-lhe na livraria um preto velhaco chamado Quelé. Vendo o ar de bondade de João Ribeiro, convidou-o para padrinho de um filho, num subúrbio longínquo. O mestre, não podendo fugir ao compadrio, fez-se presente ao batizado por uma procuração. O Quelé, daí em diante, sempre que via o compadre, pedia-lhe a bênção do afilhado. João Ribeiro não tinha outro jeito senão morrer nos 10 mil réis, embora desconfiasse, de si para si, que o afilhado era um embuste. Um belo dia, o escritor conversava com Alves, o Quelé se aproximou, com ar pesaroso, e lhe deu a notícia de que o filho tinha morrido. Queria 100 mil-réis para enterrá-lo. – Estou desprevenido, Quelé – respondeu José Ribeiro. E o Alves, solícito: - Por isso não seja. O senhor tem na casa um saldo de seus direitos autorais. Aqui estão os 100 mil-réis. E assim que o Quelé saiu levando o dinheiro, o velho bateu no ombro do escritor, que remoía consigo a raiva surda do prejuízo que acabava de ter, por culpa do livreiro, que assim se justificou: - Isso foi um negócio da China, meu amigo! O Quelê resolveu matar-lhe o afilhado e o senhor ficou livre dessa pensão pelo resto da vida!” [pp. 149-150].

O texto escolhido por Carlos Leal, de autoria de Raul Pompeia (1863-1895), para integrar a homenagem a Francisco Alves, intitula-se, despretensiosamente: “Lembranças da semana” [pp. 152-157]. O jovem escritor naturalista com inclinações pelo positivismo como doutrina filosófica e moral, destaca o valor dos escritores que se consagram a perpetuar, nas novas gerações, os sentimentos do amor à família e de fidelidade às tradições pátrias, que constituem como que o chão firme onde se sedimentam as grandes convicções que, anos depois, serão postas em prática pelos educandos, quando tiverem sido integrados no cenário do mundo.

Destacando o olvido que os “operários de nossa civilização” professam acintosamente com os que encarnam os altos valores do espírito, frisa Raul Pompeia, no início das suas “Lembranças de família”: “Fica esquecido que a obra importante vem da terra e cresce organicamente como uma planta, e antes de florescer em tantas coisas de agradar aos olhos e foi o esforço cotidiano de pedras, informes e feias, que se acumulavam, que iam subindo, revestidas de áspero reboco. Fica esquecido que tudo nasceu do alicerce, como de uma semente de granito metido na terra. E não se tributa a devida homenagem ao operário dessa origem indispensável, ao construtor desse ponto de partida, desse ponto de apoio, sem o qual nada seria a construção altaneira; e, pela consideração do proveito imediato do brilhante aspecto, não se considera justamente a alma vivificante do gérmen” [p. 153]. A desculpa dos que se esquecem desse aspecto essencial, é que os portadores dos valores permanentes nem sempre se preocupam com aparecer; “não se demonstram muito os que se aplicam ao insano e difícil labor dos fundamentos (...). E raro é que os possamos surpreender na obscura e generosa tarefa” [ibid.].

Chamando a atenção para o acerto de Francisco Alves em ter escolhido, na sua Editora, a divulgação de livros didáticos e de literatura que falassem à nova geração, Raul Pompeia chama a atenção para a edição em Milão, em 1886, do belo livro Cuore do italiano Edmundo D’ Amicis (1846-1908), publicado pela Livraria Francisco Alves em 1888, com a finalidade de incentivar nos adolescentes o amor pela própria pátria e pelos valores tradicionais da familia. A divulgação dessa saga era importante para o Brasil da época, toda vez que era necessário formar o espírito dos novos cidadãos, para que se identificassem com a defesa do seu país. A respeito, escreve Raúl Pompeia: “E, com efeito, ninguém merece mais como colaborador obscuro mais fecundo do nosso progresso do que os editores Alves & C., que acabam de publicar o Coração transplantado para o vernáculo por João Ribeiro (1860-1934)”.

O jovem escritor, autor de O Ateneu (1888), termina assim o seu belo texto: “Quanto lucrou João Ribeiro com a sua elegantíssima e conscienciosa tradução de De Amicis, não sabemos. Mas pode-se afirmar que honraram os precedentes da casa o zelosos editores, mandando traduzir (com licença do autor) para as crianças brasileiras esse epítome de amor filial e maternal, de respeito aos mestres, de ardente patriotismo, de singela abnegação para o bem, esse precioso resumo exemplar de um coração, que é o Cuore” [p. 157].

O jornalista e escritor José Nêumanne Pinto (nascido em 1951 em Uiraúna, Paraíba) dedicou à homenagem pelos 170 anos da Livraria Francisco Alves, o seu breve artigo intitulado: “A prosa magistral de José Américo de Almeida (1887-1980)”. José Américo, frisa Nêumanne, foi caracterizado por Alceu Amoroso Lima, “Tristão de Athayde” (1893-1983), “como um excepcional estilo de um escritor do Norte (na década de 1920 o Nordeste não era chamado como tal, pois fazia parte de toda a porção setentrional brasileira). Apesar disso a afirmação que percorreu pelo século XX, dita pelo próprio Alceu, de que aquele foi o primeiro romance regionalista, nunca foi verdadeira. Embora ilustres nomes terem abraçado a falsa tese, omitindo a falsidade, a mesma é negada pela existência de várias ficções menos primorosas ainda no século 19. (...) O poeta, jornalista e cineasta Miguel de Almeida, insuspeito de ter qualquer interesse nessa peleja agora secular, relembra, com muito tirocínio, que o termo regionalista não é usado para louvar a região, mas, sim, para reduzir o mérito do escritor por ele limitado” [ pp. 160-161].

O mais famoso livro de José Américo de Almeida, considera Nêumanne, é o romance intitulado: Reflexões de uma cabra, publicado em 1922. Sobre o conteúdo da obra, frisa Nêumanne: “De fato, poucas vezes um escriba foi tão crítico do parnasianismo contra o qual Graça Aranha (1868-1931) vituperou no Teatro Municipal de São Paulo, desafiando seus pares à expulsão, que não houve, da Academia Brasileira de Letras. No verdor dos seus trinta e cinco anos, o então promotor de Justiça dirigiu-se aos leitores desafiando-os a lhe explicarem a prosa de Machado de Assis (1839-1908), inatacável até nos Estados Unidos, cujo estilo classificou de forma mais irreverente: ‘ruminante’”. Mas a obra de José Américo de Almeida que mais aprecia Nêumanne é Paraíba e seus problemas, já na quinta edição pela Editora Biblioteca do Senado Federal. A respeito desta obra, frisa Nêumanne: “Aos setenta e três anos de idade não me esqueço da frase definitiva daquele que foi governador da Paraíba, senador, fundador da Universidade Federal de seu estado e seu primeiro reitor. Talvez por essa militância política liberal nesta pátria dos definitivos confrontos polarizados, nunca devidamente reconhecido por sua obra máxima, a centenária Paraíba e seus problemas, que na minha estante pessoal ocupa os lados do fluminense Euclides da Cunha e do pernambucano Gilberto Freire”. A máxima lição que ouvi daquele que me dizia ser eu seu último amigo de infância foi o segredo da sua longevidade: Pé na areia” [p. 163].

O último testemunho sobre a vida e a obra de Francisco Alves é de Rodrigo Octavio (1866-1944) que morreu com a idade de 78 anos, tendo acompanhado, como advogado, a trajetória do saudoso livreiro. Assim se apresenta Rodrigo Octavio no seu breve texto intitulado: "As minhas memórias dos outros": “De todos os que têm entrado nessa casa é possível que seja eu quem tenha tido o mais frequente, embora variado contato com Francisco Alves. Editor de meus primeiros livros de Direito e desse explosivo catecismo das Festas nacionais, conheci-o como livreiro, tratei-o como homem de negócios, de poucas palavras, brusco, mas sincero, leal e profundamente honesto. Conheci-o no trato pessoal em íntimo convívio, havendo passado juntos algumas estações de verão no delicioso confinamento da montanha aprazível, durante a estadia no Hotel das Paineiras; e também como advogado, tive-o como cliente e ouvi sobre circunstâncias complicadas de sua vida. Ele me pediu um estudo de papéis para aquisição de prédios e redação das respectivas escrituras e, certa vez, um conselho sobre seu testamento em vésperas de partida minha para a Europa” [p. 165].

Assim prossegue o seu testemunho Rodrigo Octavio: “Francisco Alves, sem herdeiros necessários, preocupava-se com o destino de seus bens, que, aliás, a esse tempo (1904), não haviam tomado o vulto que o decênio subsequente lhes deu. De nossa conversação verifiquei que ele, vacilando ainda no que pretendia fazer, se inclinava para o benefício das letras de preferência ao da caridade pública. Sugeri-lhe então que constituísse um fundo ara que, com as rendas, a Academia Brasileira distribuísse prêmios que estimulassem o desenvolvimento das letras nacionais. Seria um meio de perpetuar seu nome, feito nos livros, e de fazer beneficiar o livro no Brasil” [pp. 165-166].

Eis o relato que Rodrigo Otávio faz das últimas semanas de vida de Francisco Alves: “Doze anos se passaram sobre esses acontecimentos antes que, por morte do testador, o testamento pudesse ser aberto e conhecido. Nunca mais volvera Alves a falar-me em tal assunto, se bem que nossas relações seguissem assíduas, tendo ele continuado a ser o meu editor e eu a ser seu advogado. Ainda em meados de 1917, no próprio mês que foi o último de sua vida, tratamos sobre negócios. Eu havia chegado de uma viagem aos Estados Unidos e fora informado que o meu amigo estava enfermo no Hotel das Paineiras, onde, desde alguns anos, tomara o hábito de prolongar a sua estada. Fui vê-lo. Havia, num acidente de trem, com o solavanco, fraturado uma perna. Pediu-me que voltasse. Estava, então, pensando na constituição de nova sociedade para a casa comercial, de que ficara único interessado depois da liquidação consequente à morte prematura de seu sócio e muito querido amigo, o engenheiro Manuel Pacheco Leão (que fazia parte da Livraria como sócio minoritário). Tivemos diversas conferências. Mas como seu estado de saúde se agravara, nossas conversas tiveram de se espaçar. A fratura não teria, nela mesma, maior importância, mas Alves, além de idoso, era diabético. Certa manhã, antes que coisa alguma tivesse sido assentada, fui surpreendido com a notícia de sua morte” [pp.167-168].

Assim termina Rodrigo Otávio o seu depoimento: “(...). O velho trabalhador paciente e incansável, modesto e sóbrio, que vira correrem-lhe os dias todos da sua vida, sem exceção de um só, na monotonia da mesma luz mortiça, sem revérberos e sem clarões, debruçado à mesa simples de trabalho, no fundo abarrotado do seu armazém ou num despido quarto de hotel, que jamais se permitiria o desperdício de uma festa ou o luxo de uma gravata de cor, afundava na morte num inimaginável esplendor de prodigalidade”.

“(....) Em 1897 ele editou dois livros meus. Pude, em situações várias, auscultar lhe a bondade do coração e a inteireza do caráter e é de toda a justiça que a Academia Brasileira, reconhecendo-lhe os haveres, beneficiada desses altos predicados, tudo faça para que a lembrança de seu nome e a recordação da sua vida não se apaguem da memória reconhecida dos pósteros. Possuidora do enorme acervo, a Academia pôde dar prumo à sua vida e, ainda por outro bafejo da sorte, veio a avolumar lhe o patrimônio a doação do governo francês do palácio de sua sede. E teve a Academia, então, instalação própria e luxuosa” [p. 169].